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domingo, 3 de junho de 2012

Quem deveria aprender com quem?

Recentemente tenho refletido muito acerca da criação de meu filho. A cada dia uma novidade se apresenta e o sorriso é sempre muito bem vindo. Aliás, sorriso igual ao dele não existe... Ele está andando, um presente de dia das mães, quando levantou e caminhou sem a ajuda de nenhum apoio. Ele brinca, come muito, fica doente, enfim, faz tudo que uma criança nesta idade deveria fazer.

A reflexão a qual me atento fica por conta de um comportamento muito bem marcado nesta fase. Tudo o que faço, ele tenta imitar. Outro dia pegou um tubo de cola fechado (ainda bem) e passou debaixo das axilas, simulando quando faço isso com o roll-on. Fantástico! Nem sempre prestamos atenção o quanto eles nos observam. Imitam-nos mesmo, prestam atenção em tudo, mexem em tudo, procuram por tudo, não param um minuto sequer. Aí vem a constatação mais perigosa de todos: quando eles nos imitam, não sabem diferenciar o que é correto e o que não é, não têm capacidade de medir se o que fazemos está correto, se o que falamos está certo ou se nossas ações são boas ou más. Eles simplesmente imitam. E tão claro quanto isso é a constatação de que imitar acaba trazendo certo “aprendizado”. Então eles aprendem tudo o que fazemos, seja isso certo, seja isso errado.

Na atual conjuntura em que nos encontramos, muitas coisas ruins permeiam nossa vida e isso é algo muito forte dentro do cotidiano. Cotidiano esse recheado de informações, recheado de componentes que fazem da nossa vida algo muito rápido, muito volátil. Assim sendo, há muita coisa ruim para eles aprenderem. E eles aprendem.

Agora vem a questão: Quem deveria aprender com quem? Eles conosco ou nós com eles? Façamos uma breve análise.

As crianças são alegres, sorriem para tudo. São tímidas às vezes, são puras em suas considerações e na lógica que fazem das coisas. Têm uma inocência tão etérea que consegue nos desarmar por completo. Quando minha sobrinha era pequena, estávamos uma vez no mercado e ele pediu para que eu comprasse algo. Respondi que não tinha dinheiro. Ela simplesmente disse: “Então passa o cartão”. É a lógica inocente. É a pureza nos sentimentos. Sempre conto uma história que ouvi certa vez: “A criança foi na missa com os pais e no meio do sermão, gritou bem alto um palavrão, chamando a atenção de todos. Os pais ficaram vermelhos de vergonha. Ao final, disseram a todos que a criança nunca havia tido esse comportamento, que ela nunca havia dito um palavrão. Outra pessoa disse: Acredito que ela nunca teria dito um palavrão, mas pode ter certeza, ela já deve ter escutado vários”.  Verdade. Em algum momento ela escutou isso... E aprendeu!

Então, ao invés de nós, adultos, aprendermos a sorrir como as crianças, aprender a não ver malícia nas coisas, aprender a ser ativo o dia todo, deixando pra lá a ociosidade da vida cotidiana, são eles que aprendem conosco. Esse aprendizado deve ser de mão dupla. Devemos aprender com eles também. Mas para isso precisamos fazer um grande esforço em prestar atenção nas pequenas coisas, nas coisinhas que passam despercebidas em nossa vida.

E para perceber a beleza do pequeno é preciso deixar de ser grande, deixar de nos posicionarmos como donos do saber e olhar para nossos filhos como quem procura pela sabedoria, como que quer se saciar com o maravilhoso. Ficamos bobos sim, é verdade. Mas essa “bobeira” deve ser refletida em aprendizado, em sorrisos. Sorrisos e atitudes sinceras. Sorrisos e vontade em viver alegremente.

Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Docência

Docência, um ato de ensinar, talvez. Acredito que melhor seria compreendida como a sucessão de pensamentos, reflexões acerca do que é ensinar e o que ensinar. Ensinar é dar lições e/ou recebê-las, educar e/ou interagir dentre as muitas esferas da educação e por elas se reciclar.

Realmente a profissão de professor, circunda, faz do “ser professor” uma incessante procura do que é o seu essencial objetivo, ensinar, mediar conhecimentos, desenvolver habilidades, competências. E anos a fio de docência, lhe mostram cada vez mais um ser, um profissional sempre incompleto.

Incompleto, neste, quesito, não se encontra em seu teor pejorativo, mas sim, ávido por encontrar algo de mais preciso, seguro, algo lhe sempre falta em sua formação teórica e que a prática vai aos poucos lapidando. Mas o tempo, as novas técnicas e os anseios da sociedade, insistem em mudar o projeto. A pincelada final, nunca chega, mas as mudanças dão ao projeto de docente, uma amplitude, uma astucia cada vez mais consistente do que é ser um educador, um docente.

Talvez um obcecado por quebras cabeças, é isto! Todo inicio de ano letivo a gente sabe qual o resultado que queremos a imagem bonita, está ali, na caixa, mas ela é apenas um referencial, a teoria.

As peças dentro da caixa estão sempre soltas, desconexas, confusas, por onde começar?

É preciso OUVIR opiniões de quem já a montou. Profissionais da escola sempre conhecem uma peça fundamental, que norteará o nosso trabalho.

Com base nessas opiniões, torna-se necessário rever a imagem, ESTUDAR, diagnosticar, por onde vamos iniciar. Pelos cantos, pelas meandros de figuras concretas, onde vamos fundar nossas ESTRATÉGIAS.

Estratégias, sempre são estratégias, às vezes dão certo, mas de tempos em tempos é preciso REVÊ-LAS, refletir, se o que traçamos foi realmente o melhor caminho, caso a resposta seja negativa, HUMILDADE, PACIÊNCIA, para voltar ao ponto inicial.

Novamente, um palpite, um APOIO, de alguém de fora, geralmente faz sempre a diferença. As vezes pelo excesso de envolvimento não vemos a peça a que procuramos. DISTANCIAR-SE, perceber a imagem tanto a teórica, quanto a do ato empírico, às vezes é o melhor modo de vermos a situação de modo real, assim vemos POSSIBILIDADES, não apenas desafios.

Fora, o grande projeto, ali espalhado em pequenas peças, nos deparamos com efeitos não esperados, muitas vezes por falta de organização nossa mesmo, outras pelos entremeios do jogo. Não é de surpreender com ausências de peças, esbarrões, ventos que destroem o que já foi montado. Dentro das instituições, leia-se falta de recursos e apoio, desmotivação dos educandos, acúmulo de tarefas burocráticas, entre outros. Nestes momentos, a PERSEVERANÇA, DETERMINAÇÃO, sempre deve estar à frente, para sabermos, recolher, remontar, constituir o projeto inicial com a qualidade que planejamos, através do DIÁLOGO ABERTO E SINCERO com a equipe escolar e a família.

Às vezes, a imagem que planejamos não se concretiza, dentro do prazo determinado. Mas sempre temos a certeza que algo foi feito, encaixado, podemos passar para outro dar CONTINUIDADE. Não é errado, não é feio, o que não podemos é destruir, ou descaracterizar o que já foi montado, mesmo que não seja por nós. RECONHECIMENTO do trabalho do outro é essencial dentro de educação.

Alias, acho, que na verdade, como um obcecado por quebra-cabeças, ele sempre terá NOVOS DESAFIOS, afinal, como já comentamos o trabalho nunca se cessa. Sempre temos uma caixa com novas peças, e para os mais experientes, as peças, vão ficando cada vez menores, é preciso desenvolver um OLHAR DETALHISTA, mas o resultado vai ficando cada vez mais SURPREENDENTE, assim como a profissão de tentar ser constantemente PROFESSOR.

Katyane Lima Sousa

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tempo

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá aprender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”


As palavras iniciais de Santo Agostinho no livro XI “O homem e o tempo”, item 14 “O que é o tempo?”, constante de sua principal obra “Confissões”, traduzem fielmente aquilo que a grande maioria de nós pensa acerca da questão do tempo, ou seja, quase nada. Quando tratamos pessoalmente a questão, dizemos que o tempo é infinito, que não pode ser medido, que tem importância para nós enquanto encarnados, etc., etc. e etc. Mas, quando a questão foge ao parâmetro pessoal e nos vemos na qualidade de expositores do tempo, enxergamos que a questão é muito mais profunda que a superficialidade que empregamos outrora. Não que essa superficialidade seja inadequada para tratar da questão, mas quando evocamos nossa capacidade de reflexão e nossas concepções filosóficas começam a atuar sob nossa mente, chegamos a uma conclusão também superficial, mas, reveladora: há muito mais a se pensar sobre o tempo do que podemos neste momento. Pronto, encerramos então a questão: O tempo não deve ser discutido de maneira mais profunda porque não dispomos de capacidades que o possam delinear como tal. Certo? Não?

Para aqueles que se dispuseram a pensar sobre o tempo, vemos que o simples encerramento da questão não é caminho louvável, já que as concepções filosóficas que carregamos conosco não nos deixam outra saída senão filosofar ainda mais, investigar ao máximo a questão, para saciarmos nossa sede. No capítulo VI da Gênese dizem os espíritos:

“Como a palavra espaço, tempo é também um termo já por si mesmo definido. Dele se faz idéia mais exata, relacionando-o com o todo infinito. O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito. [...] Dentro desta ordem de idéias, fácil nos será conceber que, sendo o tempo apenas a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente das coisas que se medem, se tomássemos os séculos terrestres por unidade e os empilhássemos aos milheiros, para formar um número colossal, esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade... [...]... a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?!”
Num primeiro momento, numa observação bem rápida, percebemos que os espíritos procuram encerrar a questão fechado o tempo como sendo uma sucessão de coisas. Mas, se colocarmos nossos olhos sob a questão que encerra o exposto, vamos voltar a nos perguntar: o que é o tempo então, se sendo uma sucessão de coisas ele representa quase nada para a eternidade? E vemos que, na verdade, os espíritos dizem mais do que as palavras traduzem.

Para encerrar a questão, ou melhor, começá-la novamente em outros níveis, voltemos a Santo Agostinho. Diante de sua reflexão, Agostinho invertia a perspectiva acreditando que nós não vivemos dentro do tempo e sim ele habita em nossa mente. Para fundamentar sua conclusão, utilizou da lógica de que o que existe, existe, ou seja, é. Então pensou: Se o passado já passou, não o é mais, então não existe. Se o futuro ainda não chegou, não o é ainda, então também não existe. O que fica então? O presente? Também não, porque ele só existe em se comparado ao passado e futuro.

Dentro desta perspectiva, onde chegamos a constatação agostiniana de que o tempo como o concebemos não existe, nos posicionamos em tese ainda mais preocupante. Se não há presente, futuro ou passado, o momento que passamos agora é o mais importante de toda a nossa existência. E assim o sendo, deve ser encarado como tal. O que estamos fazendo com o nosso tempo então? Vivemos dentro da lógica de que tudo é tão precioso dentro de nossa evolução que não há como deixar de ser espírita por um só minuto. Façamos então que nosso tempo seja construído da melhor forma possível, sempre no caminho do bem.

Fontes: Santo Agostinho. Confissões. Nova Cultural, São Paulo: 1999, pág., 322-340 e A Gênese – Os milagres e as predições segundo o espiritismo. Capítulo VI pág. 103-107.

Anderson Mendes Fachina

Texto originalmente publicado no site Rede Amigo Espírita em 19 de janeiro de 2011: http://amigoespirita.ning.com/profiles/blogs/tempo-1

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mais vale a busca pelo viver do que viver um não viver

Refletindo sobre uma troca de tuites com amigos, falávamos sobre a alienação da vida, as escolhas que muitas vezes nos levam a uma espécie de não vida e também sobre a dificuldade de continuar buscando por lampejos de uma vida real.

Lembrei-me de uma história, em que um psicanalista cuja analisanda era atormentada em sonho por um monstro de mil faces. Por ter esse monstro mil faces, não tinha como se concentrar em um rosto. O psicanalista pediu-lhe, por isso, que deixasse de tentar identificar o semblante do monstro e se limitasse, da próxima vez, a despistá-lo, vagando a esmo por toda paisagem que se apresentasse como caminho possível.

Seguiu à risca o conselho, andou por um bom tempo a passos firmes. Um grito ao longe a assustou. Começou a correr. Corria, corria e corria. Olhava para o lado e o monstro colado à sua sombra. Percorreu um longuíssimo caminho. De repente, exausta, sobrou-lhe somente entrar numa ruela escura e sem saída. Lá, sem mais alternativas, viu-se no fim da linha. Encurralada, prestes a desfalecer, olhou nos olhos do monstrengo e perguntou aterrorizada: "O que você vai fazer comigo?" Eis que responde atônito o monstro: "Não sei, não tenho como saber. O sonho é seu!"

Deixando esta história de lado por alguns instantes, me vem a questão se podemos de fato ou não ser donos de nossas escolhas.

Para alguns filósofos, as paixões que nos impelem para participar dos acontecimentos da vida e do mundo, são meras agitações do espírito, já que no curso dos fatos da vida - pessoal, coletiva e cósmica - estamos submetidos a férreos determinismos.

Outros pensadores acreditam que o ser humano é dotado de livre-arbítrio e que com isso, podemos responder à contento ao desenrolar dos acontecimentos da vida, tomando posição, recriando as situações e nos recriando à partir delas.

Voltando à história, que me pareceu muito oportuna para o tema, pois ilustra de alguma forma que mesmo que estejamos vivendo em sonho, e que em algumas situações nos achemos encurralados por monstros sombrios em situações que não vemos saídas, ainda assim, tal sonho ainda nos pertence.

Como apregoa o budismo e muitos outros filósofos – como Aristóteles - e até mesmo o mais popular dos cantores da década de oitenta, Renato Russo (liberdade é disciplina), a liberdade está em desapegar-se.

De qualquer forma, essa afirmação merece uma melhor reflexão.

É inegável que os planos mais importantes do nosso ser, na maioria das vezes nos são desconhecidos. Temos consciência apenas parcial de quem somos. Não sabemos exatamente por que somos ou o que somos. O que torna mais complexo ainda essa busca pelo que somos – e que possivelmente qualquer luz a esse respeito, refletiria na experiência de um viver mais autêntico – é a oferta fácil e abundante que temos à nossa volta de um consumo irrefreado e uma busca ávida pelo prazer fácil, nos afasta facilmente dessa experiência autêntica.

A teatralização das relações contemporâneas - permeada pelo individualismo que isola e pela busca de uma falsa felicidade no consumo, sem contar as muitas outras ferramentas de alienação – só nos faz aprimorar a teatralização da persona que querem que nos tornemos, com isso, nos afastando da persona autêntica que podemos nos tornar.

Estamos à mercê da crença de que a técnica e o consumo são as panacéias para uma vida feliz. Nessa busca irreal pela felicidade, nos afastamos do conhecimento sobre os desejos que nos alimentam e dos conflitos que nos devoram. Acabamos por não compreender as tramas vivenciais que se desenrolam à frente dos nossos olhos e com isso, somos facilmente abatidos por uma angústia existencial que aplaca nossa vontade de seguir em frente buscando.

Desconhecemos a importante dialética entre o pensar e o agir. Razão e sentir deveriam caminhar juntos, mas excluímos um pelo outro, abrindo mão do sentir verdadeiro, por uma razão que desemboca numa técnica desumanizante, na forma de novos e desnecessários produtos. Com isso, nos tornamos órfãos desse sentir mais profundo, afetando a construção de nossa identidade, nos transformando em meros autômatos.

Como disse meu amigo em seu tuite, chega determinados momentos que essa busca cansa, se torna exaustiva. Mas ainda fica a questão: o que estamos buscando de fato? Se estamos buscando a construção de uma nova identidade que transcende o comportamento autômato e consumista, persona que se constrói na solidão do ser, é fato, mas que ao menos em hipótese, poderia nos dar um lampejo de uma vida autêntica, ainda que somente um lampejo, já não valeria por toda exaustão?

Enfim, não tenho tais respostas. Desconfio não ter vivido ainda tal lampejo, mas como diz o provérbio: "O mais importante não é chegar, mas sim o caminho percorrido até lá."

Krisnatágoras Araújo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Você faz parte desta caminhada

Às vezes a gente não mede o quanto pode influenciar a vida das pessoas que nos rodeiam, ou que simplesmente tem contato com aquilo que somos. Não se tem a noção do como isso se processa e muito menos como atuar neste sentido. Há duas semanas, fui convidado a participar de uma celebração religiosa muito especial. Um grande amigo, Luís Paulo Soares de Oliveira, enviou-me um convite para a sua ordenação como diácono da Igreja Católica, passo imediatamente mais próximo do título de padre. Trata-se de uma pessoa muito boa, de coração e mente e que, quando estava iniciando sua missão, conversava comigo demais sobre religião, filosofia, vida, cotidiano. Conversávamos demais porque era bom conversar com ele. Suas concepções de vida eram interessantes e nossa amizade girou em torno desta presença de espírito. Ele falava de sua escolha com brilho nos olhos. Discutíamos isso: certezas, dúvidas, caminhadas... Eu sabia que ele venceria e pude acompanhar isso de perto agora.

A vida sempre afasta as pessoas, quer seja pela distância física, quer seja pela distância temporal, quer seja pela modernidade da vida cotidiana. Ele seguiu o seu caminho e seu sonho. Nunca mais nos falamos como antigamente. O vi recentemente numa situação não muito boa. Quando estava muito triste pelo desencarne de meu pai ele compareceu para falar algumas palavras reconfortantes. Suas palavras tocaram fundo o coração de todos, sei disto.

Durante a celebração, muita emoção, muitas lágrimas... Tudo pela sensação de ver alguém seguindo o seu caminho como pensou seguir. Poucas pessoas nesta vida têm a vida que gostariam de ter. Umas pela falta de oportunidades, outras pela falta de vontade, outras por terem oportunidades demais jogadas fora.

Ao final, fiquei durante um bom tempo na fila para poder dar-lhe um abraço. Aquela espera mostrou o quanto ele é querido pelas pessoas. Ao chegar minha vez, um abraço forte, pose para uma fotografia e, quando ia saindo ele disse: “Você sabe que faz parte desta caminhada”. A frase proferida por ele me lançou longe. É claro que minha possível participação é infinitamente mínima. Mas sua frase me fez pensar muito sobre minha vida. Quantas vezes influenciei alguém e quantas vezes fui influenciado? Quantas vezes fiz alguém ficar bem e quantas vezes levei a tristeza? Quantas vezes fui um bom amigo e quantas vezes falei o que não devia, o que só atrapalhou? Pensando sobre isso me lembrei de tanta coisa boa que fiz e proporcionalmente lembrei-me também de várias vezes que machuquei alguém. Triste. Não precisava disso. Porém, hoje sei disto: a experiência nos torna pessoas melhores. Quem não aprende com a experiência, não viveu.

Recentemente tive uma experiência de como as pessoas nos fazem bem. Estava triste e convidei uma amiga para ir a um show comigo. Ela foi maravilhosa, companheira e protetora. Trata-se da amiga Cristina dos Santos Monteiro, uma de nossas colaboradoras. Compartilhamos mais sobre a vida dela e falar me ajudou a refletir mais. Como se não bastasse ela ainda escreveu um texto para este blog (http://caosfilosofico.blogspot.com/2011/05/teatro-prefiro-o-magico.html) narrando a importância de nossa amizade. Teatro? Prefiro o mágico... Me fez um bem...

“O que levei dessa noite, porém, mais que qualquer outra coisa, foi a confirmação de uma verdade cada vez mais presente em minha mente, de que os momentos de comunhão com quem se ama são a maior dádiva dessa vida confusa, atribulada, que por vezes nos traz apenas decepções, cuja superação parece impossível, quando se está ali, tão dentro desse processo complexo que é sentir...”

A partir de agora vou tentar medir mais isso. Vou tentar ser mais amigo, mais sincero, mais companheiro. O que atrapalha, não interessa. O que nos faz melhor e mais felizes é o que importa. Obrigado a todos meus amigos. No final de tudo, sou a construção de tudo aquilo que envolve a minha vida e assim sendo, sou eu, sou vocês.

Parabéns Luís Paulo, parabéns a todos aqueles que vivem seus sonhos!!! Obrigado Cristina, obrigado a todos aqueles que nos fazem sentir bem!!!

Anderson Mendes Fachina

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Mea culpa, das concepções de Schopenhauer ou da filosofia barata

Parte 1 - Cego e irracional?

“... por mais maciço e imenso que seja este mundo, sua existência depende, em qualquer momento, apenas de um fio único e delgadíssimo: a consciência em que aparece. [...] O mundo como representação, isto é, unicamente do ponto de vista de que o consideramos aqui, tem duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o objeto; suas formas são o espaço e o tempo, donde a pluralidade. A outra metade é o sujeito; não se encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em todo ser que percebe: daí resulta que um só desses seres junto ao objeto completa o mundo como representação, tão perfeitamente quanto todos os milhões de seres semelhantes que existem: mas, também, se esse ser desaparece, o mundo como representação não mais existe”. Shopenhauer – O mundo como vontade e representação
Apesar de tomar emprestadas as concepções antes formuladas por Immanuel Kant (1724-1804), Arthur Schopenhauer (1788-1860), o filósofo mais pessimista da história, acabou por construir um pensamento original quando apresentou sua teoria sobre a vontade do ser humano. Para Schopenhauer, a vontade é fundamento, mas sem ela própria apresentar fundamento. Em outras palavras, a vontade não se submete ao princípio da razão que rege nosso universo de representação.

Sem parecer demais complicado, visto que, desde o início vou deixando minha “mea culpa”, muito pela falta de aprofundamento filosófico, muito pela associação com minhas próprias concepções de vida, muito pela inexorável ação do tempo, que vai nos deixando cada vez mais insanos, seja pela morte natural de nossos neurônios, seja pela morte (natural???) de nossos sonhos, seja pela constatação de que a vida é o princípio do fim, gostaria de deixar claro que o intuito desta série não é propagar o princípio do “estamos no fundo do poço” e sim discutir o porquê chegamos a essa condição (se você constatar que em nenhum sentido está no fundo do poço, de verdade, não precisa ler o resto... é perda de tempo). Tudo isso, é claro, calcado na valorização imensa do humor, na valorização imensa da ironia (que nos toma de assalto todos os dias de nossa vida), na valorização imensa da livre manifestação (dois de meus melhores amigos já se dispuseram a debater o tema). Vou tentar também ser o mais sucinto possível, evitando posts longos e chatos (há como não ser chato?), sem se descuidar do fechamento da idéia ora iniciada. Mas se não concluir nada, também sei que o princípio filosófico foi mais uma vez usado de maneira produtiva, pois somos o que pensamos. Certo? Eu penso...

Concluindo este abre-alas:

Para Schopenhauer, a vontade é um princípio fundamental da natureza, independente de como ela aconteça. Assim, mesmo quando uma pedra rola morro abaixo, a objetivação desta ação tem sua natureza no corpo. Assim sendo, qualquer tendência por ai advinda não passa de um disfarce sob o qual se oculta uma vontade única, que não se submete as leis da razão única e exclusivamente por não depender desta.

Acontece então que quando o ser humano apresenta sua vontade, ou seja, faz uso daquilo que lhe é de mais imediato, indistintamente, não atua de maneira racional, mesmo que inconscientemente. Aliás, o inconsciente é um prato cheio a concepção de Schopenhauer. Para ele, “A consciência é a mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta”. Assim sendo, nossa consciência é limitada e, por isso mesmo, fica sempre refém do inconsciente, muito maior e de grande atuação em nossas ações.

Por que falar de vontade?

Todas nas nossas relações estão baseadas na vontade de algo. Todas, indiscriminadamente. Mesmo que, como diria Schopenhauer, isso seja inconsciente, ou mesmo escondido marotamente por conveniências temporais da convenção vigente. Aliás, convenção vigente é outro de nossos temas futuros.

Por enquanto ficamos por aqui, sempre refletindo acerca da vontade (a vontade é cega e irracional?). Com o decorrer dos posts, espero que o assunto flua melhor e que apresente boas discussões com vistas a nossa vida e aos nossos relacionamentos.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bolsonaro, Michael e a liberdade de expressão

Mais uma vez assistimos à repercussão, na mídia, de declarações racistas e homofóbicas proferidas pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Desta feita, ao ser interpelado por Preta Gil, no programa CQC, sobre qual seria sua reação se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra, o parlamentar definiu tal relação como “promiscuidade”, assegurando que educara muito bem seus filhos, não correndo, portanto, esse “risco”.

A polêmica se instaurou instantaneamente, e o deputado, apontado como racista, refugiou-se no seu já familiar discurso homofóbico, dizendo ter entendido que a pergunta se referia a um eventual relacionamento homossexual, porque considera, sim, que ser gay é ser promíscuo.

Já no último sábado, o meio de rede Michael, da equipe do Vôlei Futuro, foi hostilizado em Contagem-MG, pelos torcedores do Cruzeiro, que, em um coro que envolvia o ginásio inteiro, gritavam “bicha”, a cada vez que o jogador tocava na bola.

O debate que aflora à luz desses acontecimentos é em torno do conceito de liberdade de expressão. Atribui-se a Voltaire a seguinte frase: “Posso não concordar com uma só palavra que disseres, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-las”. Com efeito, o instituto da liberdade expressão é a garantia de que um cidadão pode expressar livremente seu pensamento, ainda que este seja contrário ao de outrem, ou mesmo que soe ofensivo a um indivíduo ou grupo.

Em um bom texto publicado na Folha On Line, o colunista Hélio Schwartsman evoca outro grande pensador, John Stuart Mill, para apontar os perigos da chamada “tirania da maioria”, à qual contrapõe as liberdades individuais de pensamento e expressão, destacando sua preponderância para que qualquer tema possa ser livremente discutido, sob todas as perspectivas,garantindo a dinâmica mudança/estabilidade, base da manutenção da sociedade e do Estado Democrático de Direito.

Sob essa ótica, são mesmo descabidos os clamores pela instauração de processo por quebra de decoro parlamentar, ou mesmo de processo criminal, contra Bolsonaro. Note-se, por sinal, que as usuais declarações preconceituosas do deputado quase sempre se situam no limite da generalidade, não se dirigindo a ninguém em particular, apenas expressando sua distorcida e retrógrada visão da realidade. É, aliás, salutar saber o que vai na mente deste que, pasmem, integra a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (grifo meu) da Câmara.

Já no caso do jogador de vôlei, cabe citar mais uma vez Stuart Mill, para quem a liberdade de expressão deveria ser limitada pelo princípio do dano. Daí pode-se inferir que nenhum cidadão está obrigado a aprovar , gostar ou apoiar a homossexualidade, podendo mesmo expressar-se livremente sobre isso, ainda que soe absurdo alguém arrogar-se o direito de aprovar ou desaprovar a sexualidade alheia... Entretanto, a partir do momento em que essa discordância se converte em ofensa, injúria, agressão (verbal ou física), humilhação, como ocorreu no jogo em Minas Gerais, passa-se ao terreno do dano, físico e/ou psicológico do agredido, ainda que muitos não considerem problema algum chamar de “bicha” aquele que realmente o é...

Como última observação, chamo a atenção para a fala dos bem intencionados que defendem a tolerância no esporte e em todos os meios. Louvável, mas lembro aqui que os homossexuais não são fardos a serem “tolerados”, mas seres humanos complexos e falíveis como quaisquer outros... A palavra correta, portanto, seria RESPEITO.

Cristina dos Santos Monteiro

quarta-feira, 30 de março de 2011

O comercial da minha vida

Nunca me permiti escrever tanto como agora. Quando escrevo, traduzo aquilo que sinto para o meu próprio entendimento. Nunca vivi isso. Nunca parei para pensar o quanto isso me faz bem. Apenas escrevia porque gostava. Agora entendo a necessidade que meu estado de espírito requer. Entendo que assim sou livre, sou o mágico e ao mesmo tempo a platéia que ri como nunca. Sou poderoso, sou medroso, sou inteligente, sou burro, sou romântico, sou pessimista, sou grato, sou mal agradecido, sou teu, sou meu, sou simples, objetivo e ao mesmo tempo complicado e prolixo. SOU O QUE SOU.

Há um comercial que circula na TV que sempre me chama atenção. Trata-se de uma empresa de comunicação (celular - NEXTEL) que usa pessoas andando acompanhadas pela câmera frontal, falando sobre sua vida, de maneira bem simples e objetiva, tentando passar uma idéia geral de quem são, mesmo que isso não agrade a todos, ou que mostre como elas próprias se entendem. Outro dia estava muito pensativo. Aliás, nunca me permiti pensar tanto como agora. Aliás, nunca me permiti fazer tantas coisas que tenho feito agora. Ontem mesmo, contrariando toda minha pré-concepção gastronômica fui comer comida japonesa. Pedi um prato mais simples, mas provei do prato que me causava mais aversão. Apenas me permiti fazer uma coisa que nunca tinha feito. Resultado: Gostei. Nem tanto da comida, nem tanto do peixe cru. Gostei de fazer e ponto. Com toda certeza, repetirei a empreitada, talvez agora por gostar, talvez agora por querer. Mas repetirei.

Pensando e pensando e pensando, estava no serviço e, de repente, tive uma vontade imensa de escrever e comecei. Me imaginei na mesma situação do comercial, só que meu cenário era indescritível. O texto me veio em segundos. Esse sou EU:

"Sei das minhas limitações e dos meus problemas.
Sei dos meus caminhos e dos meus desafios.
Sei da luz e das mazelas.
Sei do conhecimento e da ignorância.
Sei do meu potencial e daquilo que sou.
Sei da vida um pouco e de tudo um nada.
Sou assim, como me faço todos os dias.
Sou assim, como me vejo todos os dias.
Sou assim, buscando algo que nem sempre está ao meu alcance ou mesmo que me é de direito.
Apenas assim.
Fácil?
Se assim o fosse a vida não valeria a pena.
Difícil?
Se assim o fosse Deus não me daria tal fardo.
Olho todos os dias para o horizonte tentando me ver nas tênues linhas ao longe.
A beleza da vida está em enxergar, na percepção.
Percebo?
Nem sempre.
Tento. Treino. Erro e acerto.
A vida é então melhor quando podemos compartilhar isso.
Obrigado!"
Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 15 de março de 2011

Somos todos infantis!

Hoje aconteceu algo interessante!

Após ficar contente com os resultados que o Actívia que andei tomando tem trazido à minha vida, fui ao banheiro do trabalho, sempre muito ocupado (acho que tá todo mundo tomando actívia no trampo também) e percebi que a porta estava escorada com uma lata de solvente. E nem foi isso que achei interessante, afinal, é uma prática costumeira escorar portas com lata de solventes, não?

O que me causou um certo estranhamento foi a marca do solvente: “Solventes Anjo”. Solventes Anjo??? Como assim? Anjo? O que esse nome quer dizer? Que esse solvente é um solvente do bem? Que antes de dormir eu posso fazer uma oração para esse solvente?

E a coisa podia ficar pior: O o slogan do solvente era: “Solventes Anjo, deixando sua vida mais colorida”. WTF? Sempre pensei que os solventes tiravam a cor das coisas. Seria razoável esse slogan para a lata de tinta (que estava ao lado da de solvente), mas para um solvente? Seria esse slogan uma mensagem subliminar para me fazer inalar aquela merda e ficar doidão e ver tudo colorido? Pensando sob esse prisma, o slogan passou a ter algum sentido... Mas desisti de ficar divagando a respeito quando a maçaneta da porta foi girada e percebi que já fazia algum tempo que estava ali e tinha algum outro querendo ou usar o troninho, ou inalar o solvente...

Essa experiência com a lata de solvente causou uma impressão em mim, e levou meus pensamentos para a seguinte constatação: As empresas de Marketing tem um único objetivo, nos fazer idiotas.

A propaganda em massa foi utilizada pela primeira vez pelos Alemães, na segunda guerra mundial, para convencer a massa (entendo por massa, um agrupamento de pessoas sem identidade, sem um “rosto”) de que as práticas nazistas faziam sentido. Eles foram bem efetivos com isso.

Com o fim da segunda guerra mundial, e com os Americanos se transformando na grande potência econômica que ainda são (será que presenciaremos o fim dessa potência?) , precisavam de uma ferramenta que garantisse a realização do estado de Bem Estar Social ou Welfare State, também conhecido como American Dream. Então o que os americanos fizeram, foi se apropriar da arma alemã mais efetiva e melhorá-la muito: A Propaganda.

Ok, você pode pensar: As empresas precisam vender, nós precisamos comprar, as engrenagens da economia giram e todos ficam felizes, certo? Não acredito!

Qual é o tipo de consumidor mais afetado pelas propagandas e que desejam tudo de imediato, sem pensar no quanto custa? Se você respondeu as mulheres, foi muito machista, estou me referindo às crianças...

O que a propaganda faz com o consumidor é transformá-lo numa “criança”, na medida em que ele não consegue suportar a angústia causada pela não realização do seu desejo. Aquele sonho ilusório que aparece nas telinhas da TV, capas de jornais e revistas, folders promocionais ou pelos outdoors imensos das avenidas.

Fume Free e venha para o mundo livre.
Compromisso Actívia! Se não funcionar, a Danone devolve seu dinheiro.
Sucrilhos Kellogg’s, desperte o tigre em você.
Comemore o Natal com sua família, tomando Coca-cola.
Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim.

Enfim, somos bombardeados por esse lixo todo e nos perguntamos: Por que não experimentar? Por que não comer? Por que não comprar?

Ai nos tornamos num consumidor acéfalo, incapaz de refletir sobre a real necessidade daquele consumo.

Então é isso? As empresas de propaganda nos transformam em consumidores acéfalos que não suportam a angústia de não ter um Iphone ou Ipod, não ter um tênis Nike, etc?

O mesmo capital que cria o problema, cria a solução para os seus problemas, ai a coisa se resolve de forma simples: CRÉDITO!

Pela primeira vez, não precisamos mais lidar com a angústia de não ter nossos sonhos – nesse caso ilusórios – realizados.

Não preciso mais ficar sonhando com o carro que o Jack Bauer usa. Não fico mais sonhando com o Iogurte que a gostosa do Big Brother toma. Não preciso mais sonhar com Iphones ou Ipods, posso comprá-los, mesmo que não tenha dinheiro para isso ou que me padrão de vida não me permita...

Essa prática leve o processo de infantilização ao extremo. Fetiches tecnológicos e sonhos consumistas que nos consomem (percebe a inversão? não somos mais consumidores, somos consumidos pelos objetos do desejo) pode sem realizados de imediato.

Bem, o que tudo isso tem haver com o solvente do começo da história? Além do fato de que o departamento de marketing daquela empresa achar seus consumidores verdadeiros imbecís? Pro inferno com eles!

Krisnatágoras Araújo

sábado, 12 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher - Sou contra!

Eis que após uma noite mal dormida, tomando minha caneca diária de café, buscando nela a coragem necessária para vestir a botina e ir para o trabalho, ligo a TV para assistir um pouco do noticiário matutino, enquanto o café não termina e me deparo com primeira notícia boa do dia: vários peitos e bundas, cuidadosamente esculpidos por magos do bisturi, todos ali, estampados na telinha mágica, jogados na minha cara, sem nenhum pudor, sem nenhum respeito pela minha sonolência matutina (que confesso ter acabado no início da matéria).
Após me deliciar com a deliciosa exposição de peitos e bundas das carnavalescas, me deparo com a primeira notícia ruim do dia: Era o Dia Internacional da Mulher. Trocaram aqueles lindos peitos e bundas (que estavam alegrando o meu início de dia) por uma mulher de meia idade, usando terninho, moderna, executiva, tipo “gerente durona”, cujo único objetivo de vida é esculachar seus subordinados homens. Uma mistura de Edinanci Silva com Margareth Tatcher.
A matéria mostrava o “sucesso” da mulher moderna. Fiquei digerindo por alguns instantes o que significava esse Dia Internacional da Mulher. Puxa vida, Dia Internacional! Não é uma data que é comemorada só em Uberlândia, em Minas e nem só no Brasil. Se é internacional, só pode ser comemorado no mundo todo.
Não estava disposto a sair cumprimentando todas mulheres que via, e para não me comprometer, cumprimentei duas mulheres: Minha namorada e a namorida de um amigo que estava preparando o almoço pra gente. Falei ainda com a minha mãe, mas me recusei a cumprimentá-la, afinal ela já tem um dia especial(que não sei se é ou não internacional), só para ela, que é o dia das mães, não é?!?!
Digerindo um pouco mais a matéria (não a das carnavalescas, a do Dia Internacional das Mulheres), percebi que ela nem citava o motivo que em todo dia 08 de março comemoramos o Dia Internacional das Mulheres. Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias, que recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas.
Continuei pensando a respeito do Dia Internacional das Mulheres, e cheguei a uma conclusão: sou contra o Dia Internacional das Mulheres.
Se nossa sociedade tipicamente paternalista reserva um dia no ano para comemorar e refletir sobre o papel da mulher em nossa sociedade, de alguma forma, significa que em todos os outros dias do ano, essa discussão é esquecida.
Poderia refletir de uma outra forma. Se existe um dia para homenagear as mulheres, indica que muitas mulheres ainda não conseguiram conquistar os direitos fundamentais. Significa que as mulheres, assim como os Negros, ainda não minorias (não em quantidade, mas em acesso aos direitos fundamentais) afinal, não temos o Dia Internacional dos Brancos ou o Dia Internacional dos Burgueses ou pelo menos o Dia Internacional do Gerente Mala. Porque não existem esses dias? Pelo fato de que brancos, burgueses e gerentes malas não são minorias (para nossa infelicidade, a menos que você seja um gerente mala o_O).
O Dia Internacional das Mulheres, como é tratado pela grande mídia (e pela massa de mulheres que se acham especiais por ter um dia internacional para elas) esconde algo fundamental: esconde as milhares de mulheres nordestinas que sofrem com a seca nos sertões, esconde as mulheres que são excluídas de direitos mínimos em regimes tirânicos como os que estão sendo derrubados no Oriente Médio e o ainda resistente Irã, esse dia escamoteia a vida dura de superação que muitas mulheres mães como a minha e a sua tiveram, escondem a história de mulheres como Louise Michel, Emma Goldman, Francisca Saperas, mulheres anarquistas que dedicaram suas vidas por uma causa.
Infelizmente, o Dia Internacional da Mulher, não lembra das Mães da Praça de Maio, argentinas que se reuniram na Praça de Maio em Buenos Aires para exigirem notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura argentina.
E pior, escondem também toda insegurança que ficam por trás dos terninhos elegantes das executivas que conquistaram lugares importantes (acho que ainda tem muito espaço que precisa ser conquistado pelas mulheres no comando do mundo) mas que ainda acham que para se superarem precisam sempre ser melhores que os homens.
A comemoração do Dia Internacional das Mulheres esconde por fim, a realidade crua de que planeta é ainda, não obstante as conquistas da mulher, totalmente paternalista. A grande maioria dos que decidem o rumo do mundo, infelizmente, ainda são homens, assim como nos muitos lares, cuja família sofre com as decisões do chefe da família, que é respeitado e temido.
Enfim, para mim, a comemoração do Dia Internacional da Mulher é um grande blefe. É algo como: “Mulherada, olha só, demos um dia para vocês lembraram que queimamos mulheres numa empresa, por favor, fiquem contentes, cuidem dos nossos filhos e não roubem nossos trabalhos”.
Ficarei feliz no dia que não precisaremos mais comemorar o Dia do Negro, o Dia do Índio, o Dia do Trabalhador ou o Dia das Mulheres. Não porque deixou de ser rentável para o Comércio ou porque essas minorias caíram no esquecimento. Mas deixaremos de comemorar pelo fato de não serem mais minorias, como os Brancos, Burgueses e Homens.
Terei o prazer e dizer: Feliz dia de Nada.

Krisnatágoras Araújo

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Ultrapassar

Acredito em quase tudo nesta vida. Acredito em Deus, acredito na beleza do amanhã, acredito nas pessoas, acredito que tudo tem um porquê, acredito que não estou aqui somente de passagem, enfim, ACREDITO. Dentro deste paradigma, sou uma pessoa que busca, no horizonte, a medida exata para corroborar meus pensamentos, não o contrário. Sei que nem sempre as coisas deveriam ser assim. Pode parecer meio egoísta de minha parte pensar que tudo aquilo que penso tem uma linha e essa linha deve ser seguida. A vida me ensinou a ser metódico, eu não pedi para ser o que fui no passado, não pedi para passar pelo que passei, não pedi... Mas agradeço todos os dias por isso. “Somos a medida de tudo aquilo que fazemos”, li em algum lugar e concordo piamente, ou melhor, a frase é quem concorda comigo, simples e complexo assim.

Outro dia li que morremos e nascemos muitas vezes, até mesmo em um único dia e que quando isso não acontece é porque carregamos, conosco, coisas que já não têm mais sentido em nossa vida mas, que por algum motivo ainda nos perseguem. Correto, perfeito é isso mesmo. Mas uma questão bate a minha porta há alguns anos e isso tem me tirado o sono ultimamente. Para melhor explicar isso, apresento minha releitura, bem simples, de dois conceitos aos quais conheci por meio de um programa (podcast) que escuto semanalmente.

Um deles é um mito grego que tenho contato com freqüência. Trata-se do Mito da Caverna de Platão. Nesta alegoria, narrada pelo célebre filósofo, os homens vivem no fundo de uma caverna, acorrentados e sempre com o rosto virado para o grande paredão do interior desta. Vivem a vida assim, sem se mexer e sem conseguir ver mais do que aquele paredão. Às suas costas, a certa distância, há a entrada da caverna por onde entram alguns raios de luz. Estes raios de luz entram e projetam nessa parede tudo o que acontece do lado de fora. Assim, do lado de foram passam objetos, pessoas, coisas, tudo. Os prisioneiros da caverna conhecem então, somente as sombras que são projetadas na parede.

Em determinado dia, um desses prisioneiros se solta. Com muita dificuldade passa por entre os diversos obstáculos entre o lugar onde ficava e a entrada da caverna. Ao se deparar com a vida do lado de fora se espanta, vê coisas, cores, têm sensações, tudo muito confuso mais muito mais real, na verdade, a vida real. Sol, pessoas passando de um lado para o outro, animais... Sua reação primeira é contar aos outros o que está vendo. Volta ao interior e começa a contar as novidades aos demais. O que acontece? Ninguém dá crédito às suas palavras, pois a vida que conhecem e que acreditam ser a real é aquela, das sombras... Ele é morto por querer passar uma nova visão, mas prá quê? A vida daqueles acorrentados é a das sombras, na caverna.

Onde quero chegar com essa metáfora?

Bom, vamos ao segundo conceito. Trata-se da teoria do simulacro e da simulação de Jean Baudrillard, que dizem (não me lembro bem, mas não compromete o resultado final) ser baseada no seguinte conto: Num reino, abriu-se uma competição onde o vencedor seria aquele que confeccionasse o melhor mapa deste reino. O melhor mapa sempre é aquele que tem mais detalhes, sua escala é mais condizente com a verdade, etc. Assim, sempre vencia aquele que fazia o maior mapa, pois com mais espaço poderia acrescentar mais detalhes. Chegaram então à conclusão de que o mapa ideal seria aquele que fosse do tamanho do próprio reino, com todos os detalhes, ruas, casa, etc. E esses populares começaram a construir esse mapa. Terminada a empreitada homérica, todos ficaram satisfeitos com o resultado, o mapa, agora, era o próprio reino. E a vida não era mais a mesma. Com o encantamento que o mapa trouxe, todos começavam a viver o mapa e não a vida real.

Concluindo:

Hoje vivemos sob a égide da simulação. Antigamente, saímos das cavernas e procuramos descobrir o mundo. E que mundo... O construímos com muito sangue, derrotas, vitórias, num caminhar extenso, árduo mas compensador. Hoje, nos recolhemos novamente às cavernas. Nossa vida é uma simulação. Dormimos, acordamos, fazemos as mesmas coisas (nem sempre questionamos o sentido disto), trabalhamos, chegamos em casa, assistimos TV e voltamos a dormir novamente. Uma mera e simples simulação do que seria uma vida. Nossa vida é a da novela, onde o mocinho sempre é galã e tudo da certo no final. Vivemos em função da TV e de várias outras coisas que nos afastam de nós mesmos. Deixamos de lado o amor, a felicidade, os “momentos apaixonantes”, as pessoas que gostam de nós e passamos a viver uma vida decorada, maquinal, sem sentido. Salário, contas, contas, salário. Tudo muito assim, simples e vazio.

Eu costumo dizer que há uma diferença abissal entre passar e ultrapassar. Na vida, passamos por diversas situações onde devemos aprender sempre. Mas quando apenas passamos por elas, abrimos caminho para que elas novamente passem pela gente. E o que tem de gente passando pela vida...

Passando e apenas passando. Zumbis contemporâneos ligados ao simples e mero caminhar.

Isso vem ao encontro da frase que citei acima. Todos os que vivem dessa forma, carregam todas as coisas “mortas” consigo. Não as deixam para trás e não renascem, ou seja, não vivem, apenas são conduzidas até o leito de morte. Acostumamos-nos com a maldade do mundo, com a falta de magia em nossas vidas, com a ausência de algo real, verdadeiro...

Sou uma pessoa sentimental por natureza. Sou forte também por natureza. Sou EU. Mas ainda acredito naquilo que é verdadeiro, transcendental, que só acontece em nossa vida quando ultrapassamos algumas coisas extemporâneas... Fácil de me entender? Como disse ontem a uma pessoa: às vezes não faz sentido pra mim [o que penso, escrevo, falo], por que tem que fazer sentido para os outros?

Anderson Mendes Fachina

sábado, 15 de janeiro de 2011

O caos e a reconstrução

Ansiava pelo noticiário nos primeiros dias de 2011, infantilmente esperava que o Brasil e o mundo retomassem seus olhos, ouvidos, câmeras e reportagens para o assunto predominante há exatos 12 meses atrás: o caos no Haiti. No entanto, foram poucos os minutos dedicados a notícia/tragédia velha e muitos outros mais para notícia/tragédia nova: a calamidade causada pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro.

As cenas, o desespero e a contagem dos mortos narrados minuto a minuto pelos meios de comunicação, causam dor, angústia, desconforto, que normalmente tem duração até ao início da próxima telenovela, da próxima zapeada ou da malfadada “espiadinha”.

Entretanto o compromisso com a História nos faz pensar não somente no momento das tragédias, mas principalmente na reconstrução das vidas ou, melhor dizendo, na recolocação do caos em padrões socialmente concebíveis. Ainda que soe como um pensamento chavão convém crer que a necessidade de reconstrução de uma cidade, uma região ou uma nação seja encarada como uma oportunidade na busca de novos rumos ou novos fins.

O que massacra a percepção de oportunidade é a constante de sensação de indignação coletiva diante da morosidade, da indiferença ou do oportunismo doentio nesses momentos... o que dizer dos saqueadores de ajuda humanitária no Haiti, dos ladrões de casas alagadas nas cidades sitiadas do RJ e SP? Some-se aos governos e as mesmas declarações de todos os anos, tais como: “choveu em tanto tempo o equivalente a...”

Enquanto as estatísticas cumprem sua dupla jornada de informar e distanciar o problema da realidade algumas pessoas simplesmente trabalham, honram a vida do outro como se fosse a própria, nestas pessoas sobra caráter, vontade e dignidade, e é a soma destes três elementos pode fazer do caos no Haiti e no Rio de Janeiro um oportunidade para novos fins.

Leon Denis de Almeida