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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Jacrocacas, crocarés, bichos malvados na água!

Ontem fez três anos. Três anos se passaram e sua presença ainda é imensa. Durante todo o ano eu pensei nessa frase e no seu sorriso ao proferi-la. Ah, eu gostava muito de ler gibis. Assim como o “Pateta” e sua ingenuidade, toda a carga de inocência mostrava o quão era bom dar uma gargalhada dessas.

Jacrocacas... Cocrarés... Bichos malvados na água... Você repetia isso com um olhar tão brilhante... E seu sorriso... Seu sorriso era intenso... Forte... Lindo.

Não um minuto... Uma eternidade em silêncio... Um até breve...


Anderson Mendes Fachina



2013
2012

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dilaceração humana


Há alguns dias atrás, por conta de meu ofício, tive que encontrar um lugar onde pudesse dilacerar alguns papéis que seriam descartados. Procurei na cidade onde poderia fazer isso e encontrei uma cooperativa que recolhe e prepara materiais recicláveis para a venda. Então o material é recolhido nas ruas, separado e arrumado em blocos para venda a fábricas que reutilizam os materiais. Todo o dinheiro obtido com essa venda é repartido entre os membros da cooperativa, desde o catador mais comum até o motorista que efetua o transporte do material.

Assim sendo, tive que permanecer no local até que todos os meus papéis fossem dilacerados e isso tomou grande parte do meu dia. Acabei ficando na cooperativa por mais de seis horas. Neste tempo, fui conversando com a funcionária que me atendeu e efetuava o serviço que eu havia levado. Tratava-se de uma jovem de 27 anos, com feições bem marcadas pela difícil vida. Era uma pessoa bem humilde que, aos poucos, foi contando um pouco sobre sua vida. Ela disse ter três filhos, sendo que quando teve a caçula, teve um problema no parto e acabou internada por diversos dias na UTI, tendo que inclusive fazer fisioterapia para voltar a andar, motivo pelo qual ficou vários meses dependendo da cadeira de rodas.

Ela ainda contou sobre a vida difícil na cooperativa e o fato de ter ganhado apenas R$ 600,00 no mês de janeiro, justo o mês onde se tem a maior soma de contas para pagar. Falou ainda dos seus problemas com a inadimplência: “Mal a gente consegue pagar uma conta que está atrasada, já tem outra entrando com tudo”, disse.

Comentou ainda sobre os filhos e como os amava. Falou que ficava triste em ter que deixar a caçula na creche e como gostava de ficar o dia todo com eles nos finais de semana. Disse que eram crianças espertas e inteligentes e que era muito difícil conseguir comprar coisas boas para elas por conta de sua renda.

Falou que o marido não a apoiava em nada e que simplesmente não se preocupava nem com a casa, nem com as crianças: “Ele compra a comida, paga a energia e diz que este é o seu papel. Nunca se preocupa com as crianças, com os estudos delas. Chega em casa, troca de roupa e vai para o bar. A gente vai conhecendo as pessoas conforme vamos vivendo com elas. Se eu pudesse voltar atrás, não estaríamos juntos. E eu nem posso pensar em largar dele, pois não tenho condições de manter os meus filhos sozinha”.

Todo esse dia e o diálogo que tinha com essa jovem senhora iam me fazendo refletir sobre a minha própria vida e a das pessoas que ali trabalhavam. Conheci mais umas duas ou três pessoas ali, de histórias parecidas. Pessoas boas no trato, com uma simplicidade tão ressaltada, mas com a feição muito marcada pela vida.

Sem dúvida alguma, foi uma experiência muito marcante. Imagina que eu fui até o local de roupa social, sapato bem engraxado, gel no cabelo... Quando me dei conta, já estava todo sujo ajudando no serviço uma vez que eu não poderia sair dali sem terminar tudo. Lembrei de muita coisa que já passei na vida e de como às vezes tendemos a acreditar que o nosso problema é maior que o dos outros.

Essa jovem senhora, a qual eu passei mais de seis horas ao lado, conversou, contou sobre sua vida difícil e sempre, mas sempre mesmo, estava sorrindo. Apesar de contar sobre as dificuldades, em nenhum momento praguejou a vida ou sua condição. Aliás, ainda contava sobre seus planos com entusiasmo. Estava esperando a resposta de outro serviço numa fábrica, com melhores rendimentos e carteira assinada. E isso fazia seus olhos brilharem quando falava. Sempre tinha esperança no olhar.

Não vou ficar dizendo o quanto a gente reclama por coisas tão mesquinhas perto de uma vida difícil como dessa jovem senhora. É chover no molhado.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 13 de janeiro de 2013

Supermemórias


Eu era muito pequeno e já andava contigo na garupa da bicicleta por toda a cidade, principalmente aos domingos pela manhã. Lembro de um short azul, uma camiseta amarelo claro e uma conga azul que eu usava na maioria de nossos passeios. Lembro-me da sensação de vento no rosto, do gostinho do sol e da sua companhia, que sempre era muito boa. Cruzávamos a pista sempre com atenção aos carros que ali passavam em alta velocidade. Naquela época a pista nem era duplicada, nem todas as ruas de nosso bairro eram asfaltadas, não existia cadeirinha de bicicleta e eu ia pra escola de mãos dadas com minha irmã. Outro tempo. Outro tempo que não volta mais. Outro tempo onde nossas brincadeiras eram inocentes, porém muito imaginativas, pois tínhamos nosso próprio mundo de fantasia.

E sair contigo de bicicleta aos domingos fazia parte deste mundo fantasioso. Andávamos meio que sem rumo, mesmo sabendo eu que haviam algumas paradas obrigatórias durante esse trajeto. E esses locais de parada sempre foram muito bem conhecidos por mim. Eu os freqüentava contigo desde pequenino e gostava da possibilidade de ganhar um doce, tomar um guaraná enquanto o senhor conversava e tomava uma cerveja. Era legal colecionar aqueles indiozinhos que vinham naqueles doces de banana açucarados. Eu tinha vários deles. Era legal também ganhar uma maria-mole com bexiga ou mesmo uma paçoca, um doce de leite... Eu sempre gostei de doce.

Às vezes eu ficava brincado com as bolhas na mesa de bilhar. Nem conseguia pegar o taco corretamente e, por mais que perguntasse, não entedia nunca pra que servia aquele giz azul ou porque a bola de número 15 só entrava na mesa quase no final do jogo. Porque todas as bolas podiam brincar e ela só entrava no final?

Ainda lembro... Ainda me lembro dos dias em que saímos a e chuva nos pegava no caminho. Se fosse necessário passávamos o dia todo fora de casa. Em algum momento nesses passeios, chegávamos à casa da vovó. E eu gostava de passar lá. Sempre fui o primo mais velho, nunca brinquei muito com os outros, mas gostava muito de ficar no meio dos meus tios. Gostava de brincar com o Marquinho, com o Cláudio e escutar as histórias do Zicão, do Paulo, do Chapéu e do vovô, além de tentar entender o que o meu tio Tonho dizia. Eu era muito criança, mas adorava estar no meio deles.

Meus domingos ao seu lado eram assim. Lembro-me como se fosse hoje. Lembro-me como se estivesse esperando seu chamado para sentar na garupa da bicicleta. Bons tempos. Quantas saudades de ti pai.

Hoje faz dois anos e eu ainda sinto saudade daquilo que não foi. Rezo sempre por ti. Um beijo.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Palmeirenses + São-paulinos


Houve um tempo em que eu acreditava que as amizades verdadeiramente sólidas, pra vida inteira, seriam só aquelas construídas na infância, no início da adolescência, o mais tardar.

Seria mais ou menos como escolher um time de futebol pra torcer: quase todo mundo, quando é pequeno, troca de time algumas vezes, até optar por um, aquele do coração. Porque não daria pra passar a vida mudando, alviverde hoje, tricolor amanhã, ao sabor das vitórias de cada equipe. Há que se escolher e ser constante, na vitória e na derrota, no futebol como na vida.

Mas a vida, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. Um clichê batido? Talvez a expressão do que pode ser, e às vezes é, inesperadamente bom.

Na faculdade em uma repetição do ciclo que eu atribuía à infância,integrei vários grupos, estabelecendo boas relações de boteco/biblioteca/conversa, mas amizade mesmo, só um pouco mais tarde, com aqueles três caras, que se tornaram meus três cavalheiros, os meninos do meu coração, pra vida inteira.

Formávamos um grupo desequilibrado, em termos de paixão futebolística, sendo o Willian o “pontinho verde” em meio à maioria são-paulina. Três bambis e um porco, como eu propus uma vez. Só o Willian achou legal.

O caso é que o nosso palmeirense deixou de ser minoria de um modo bem agradável: desposou uma alviverde e converteu o filhote. Por outro lado, o Anderson garante que o Rapha já nasceu tricolor, e a Katy não se opõe.
O GRANDE ENCONTRO: Raphinha, Katyane, Anderson, Cristina,
Leon, Ana Paula, Vandete, Wilian e Wilian Jr.

A novidade que nos foi comunicada no último domingo é que o Leon está arriscado a se tornar minoria em sua própria casa, já que lançou seus encantos a uma palmeirense muito gente boa (bem vinda ao bando, Ana!), e deu tão certo que a herdeira (o) já está a caminho. Só que, segundo a mãe, periga nascer com um duvidoso gosto por meiões verdes e camisas marca-texto...

Ainda bem que eu tive a felicidade de impedir a virada de jogo:minha baiana fica linda com sua camisa tricolor, e não é a do Bahia.

De qualquer forma, o Willian Jr. ainda está naquela maravilhosa fase da infância, na qual virar a casaca é possível e permitido. Quanto ao resto, amigos maravilhosos podem surgir a qualquer momento, em qualquer fase da vida, se ele tiver sorte como eu.

Cristina dos Santos Monteiro

domingo, 3 de junho de 2012

Quem deveria aprender com quem?

Recentemente tenho refletido muito acerca da criação de meu filho. A cada dia uma novidade se apresenta e o sorriso é sempre muito bem vindo. Aliás, sorriso igual ao dele não existe... Ele está andando, um presente de dia das mães, quando levantou e caminhou sem a ajuda de nenhum apoio. Ele brinca, come muito, fica doente, enfim, faz tudo que uma criança nesta idade deveria fazer.

A reflexão a qual me atento fica por conta de um comportamento muito bem marcado nesta fase. Tudo o que faço, ele tenta imitar. Outro dia pegou um tubo de cola fechado (ainda bem) e passou debaixo das axilas, simulando quando faço isso com o roll-on. Fantástico! Nem sempre prestamos atenção o quanto eles nos observam. Imitam-nos mesmo, prestam atenção em tudo, mexem em tudo, procuram por tudo, não param um minuto sequer. Aí vem a constatação mais perigosa de todos: quando eles nos imitam, não sabem diferenciar o que é correto e o que não é, não têm capacidade de medir se o que fazemos está correto, se o que falamos está certo ou se nossas ações são boas ou más. Eles simplesmente imitam. E tão claro quanto isso é a constatação de que imitar acaba trazendo certo “aprendizado”. Então eles aprendem tudo o que fazemos, seja isso certo, seja isso errado.

Na atual conjuntura em que nos encontramos, muitas coisas ruins permeiam nossa vida e isso é algo muito forte dentro do cotidiano. Cotidiano esse recheado de informações, recheado de componentes que fazem da nossa vida algo muito rápido, muito volátil. Assim sendo, há muita coisa ruim para eles aprenderem. E eles aprendem.

Agora vem a questão: Quem deveria aprender com quem? Eles conosco ou nós com eles? Façamos uma breve análise.

As crianças são alegres, sorriem para tudo. São tímidas às vezes, são puras em suas considerações e na lógica que fazem das coisas. Têm uma inocência tão etérea que consegue nos desarmar por completo. Quando minha sobrinha era pequena, estávamos uma vez no mercado e ele pediu para que eu comprasse algo. Respondi que não tinha dinheiro. Ela simplesmente disse: “Então passa o cartão”. É a lógica inocente. É a pureza nos sentimentos. Sempre conto uma história que ouvi certa vez: “A criança foi na missa com os pais e no meio do sermão, gritou bem alto um palavrão, chamando a atenção de todos. Os pais ficaram vermelhos de vergonha. Ao final, disseram a todos que a criança nunca havia tido esse comportamento, que ela nunca havia dito um palavrão. Outra pessoa disse: Acredito que ela nunca teria dito um palavrão, mas pode ter certeza, ela já deve ter escutado vários”.  Verdade. Em algum momento ela escutou isso... E aprendeu!

Então, ao invés de nós, adultos, aprendermos a sorrir como as crianças, aprender a não ver malícia nas coisas, aprender a ser ativo o dia todo, deixando pra lá a ociosidade da vida cotidiana, são eles que aprendem conosco. Esse aprendizado deve ser de mão dupla. Devemos aprender com eles também. Mas para isso precisamos fazer um grande esforço em prestar atenção nas pequenas coisas, nas coisinhas que passam despercebidas em nossa vida.

E para perceber a beleza do pequeno é preciso deixar de ser grande, deixar de nos posicionarmos como donos do saber e olhar para nossos filhos como quem procura pela sabedoria, como que quer se saciar com o maravilhoso. Ficamos bobos sim, é verdade. Mas essa “bobeira” deve ser refletida em aprendizado, em sorrisos. Sorrisos e atitudes sinceras. Sorrisos e vontade em viver alegremente.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 11 de março de 2012

Acapulco

Hoje acordei cedo ao lado do meu filhotinho e liguei a televisão para dar uma zapeada pelos canais. Às vezes gosto de assistir o Globo Rural ou um daqueles programas informativos que passam nos horários onde muitos nem ligam a televisão, afinal, quem acorda antes das 9h no domingo?
Turma do seriado Chaves

Qual foi minha surpresa quando passei por um canal onde passava o seriado Chaves. Surpresa não pelo seriado em si, uma vez que a qualquer hora do dia no referido canal é possível assistir ao programa do Chaves. Surpresa porque há muito tempo não assistia ao episódio onde todos vão para Acapulco (eu sei que ele deve passar pelo menos umas três vezes na semana, mas faz tempo que não o via).

Para que não se lembra deste episódio (existe alguém que não lembra?), a Chiquinha compra um pote daquelas pastas brancas para limpar prata usando 20 mangos que “pegou” na gaveta do Seu Madruga. O professor Girafales encontra a pasta e como sabe que na casa da Chiquinha não há nada de prata, ele desconfia que ela surrupiou a pasta em algum lugar. Logo descobrem que ela comprou a pasta para concorrer a uma viagem a Acapulco, que acaba ganhando. Com a ida da Chiquinha e Seu Madruga, a Bruxa do 71 também decide ir. Por puro despeito, a Dona Florinda e o Quico também vão, assim como o professor Girafales. Ao saber que todos seus inquilinos tiraram férias, o Seu Barriga também decide ir e leva o Chaves. Em Acapulco, as mesmas palhaçadas e brincadeiras de sempre e a certeza de que iremos rir do início ao fim.

Assisti ao episódio e mais uma vez me coloquei a pensar como um seriado tão antigo consegue arrancar nossas risadas com as mesmas piadas de mais de três décadas (o episódio de Acapulco foi gravado em 1978). Sem apelação, sem mulheres seminuas, sem palavrões, sem recursos especiais, sem nada de diferente. Aliás, a produção do programa era muito simples, com os personagens num único set, mesmos figurinos e baixo orçamento. Talvez seja essa simplicidade a “alma” do seriado. Não sei ao certo, mas há uma magia impar neste seriado que fez com que minha avó, minha mãe, eu e logo meu filho, sorriam sem parar das trapalhadas da trupe.

Quantos programas bestas vemos hoje serem produzidos por essa televisão brasileira (infelizmente são programas que vendem, pois há público)? Quanto lixo há na “telinha” (e a telinha em alguns lugares já tem mais de 40 polegadas)? Quanta podridão?

Não sei até quando darei risada com o Chaves. Só sei que ele me faz lembrar a simplicidade da vida e do cotidiano. Só sei que quando escuto frases do tipo “pois é, pois é, pois é”, “foi sem querer querendo”, “não se misture com essa gentalha”, “e da próxima vez, vá... na sua avó”, “tinha que ser o Chaves”, me transporto para um passado não muito distante, onde sinto o cheiro da terra, da comida da minha mãe, da vida.

Anderson Mendes Fachina

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O primeiro dia na escola

Não lembro em nada meu primeiro dia na escola, mas não vou esquecer o primeiro dia de meu filho. Hoje ele iniciou sua vida "escolar", com apenas onze meses de existência numa escola que julgo ser uma das melhores no ramo. Tive a oportunidade de acompanhá-lo durante toda a manhã nesta empreitada. Como não poderia deixar de ser diferente, fomos os primeiros a chegar. O horário de entrada é as 7h30 horas. Lá pelas 7h05 já tinha estacionado o carro na frente da escola. Fomos, de longe, os primeiros a chegar. Realmente a ansiedade é um problema que tenho que aprender  a enfrentar.

Eu, de férias e totalmente perdido (nesta semana vou fazer essa adaptação), fui muito bem recebido e passei uma manhã maravilhosa, mágica. O Raphinha não deu trabalho algum, comeu bastante e ficou observando atentamente todo o ambiente, como sempre faz. Seu coleguinhas (quase todos já andando) também mostraram-se contentes com o início das aulas. Há tempos que eu não subia numa árvore. Fiquei tentando a realizar essa "travessura" e não me contive. Lembrei-me de uma infância distante, onde as crianças realmente brincavam, realmente se divertiam com qualidade. Bom e velhos tempos... Quem tem mais de trinta sabe o que eu estou falando. O local é propício. Tem plantas, caixa de areia, árvores, galinhas, jaboti, parquinho de madeira, brinquedos de madeira e pano (não há nada de plástico), etc. Tudo é colaborativo, tudo é muito bem amarrado.

Meu filho observava a tudo atento. Ainda não anda mais tá quase lá. Ficou todo tempo no colo e até dormiu um pouco (na verdade ele só foi acordar depois das 8h30). Como ele acordou cedo e não estava acostumado, ficou meio jururu no início. A professora muito bem preparada, foi muito atenciosa e muito amorosa com todas as crianças.
Na hora do lanche, os alunos maiores ajudaram a preparar a mesa, colocaram as toalhas, os talheres e não foi nada decorado, implantado como uma regra. Percebia-se ali um aprendizado baseado no respeito e no amor mútuo. Suco natural, nada de refrigerantes, comida recheada de alimentos saudáveis. Realmente um oásis no meio deste deserto que nos assola.

A escola em questão utiliza a pedagogia Waldorf. Sem tentar explicar do que se trata, utilizo-me do trecho de um trabalho de Teresa Cristina de Oliveira Emanuel (O trabalho completo pode ser encontrado no link http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/per14.htm).

A base da Pedagogia Waldorf é conceber ao homem a harmonia físico-anímico-espiritual na prática educativa, partindo da visão antropológica, fazendo com que esta educação responda às necessidades atuais e futuras do homem. 

O ser humano deve buscar a resposta que seu interior é capaz de realizar, pois todos nascemos com predisposições e capacidades que ao longo do tempo se desenvolverão. 
Seus princípios são pautados na Trimembração do Organismo Social, que partiu da revalorização dos impulsos da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, onde se tem liberdade (no pensar) com responsabilidade, igualdade (jurídico-legal) de deveres e direitos e fraternidade como respeito mútuo regendo as instituições com base na Pedagogia Waldorf. 
No início do século passado, Rudolf Steiner retomou a idéia que havia na antiga cultura grega, onde se dividia a vida humana em dez períodos de sete anos, ou setênios e as fundamentou para o ensino aplicado à Pedagogia Waldorf. 
Do período entre a infância e adolescência dá-se importância aos três primeiros setênios, nas faixas de 0 a 7 anos, de 07 a 14 anos e de 14 a 21 anos (as idades são aproximadas devido a fatores que antecipam alguns acontecimentos), período em que a criança e o jovem recebem educação na escola. 
Os Setênios: (Apenas o primeiro setênio é explanado aqui. Para mais informações, acesse o link) 

De 0 a 07 anos (maturidade escolar) 
- A criança está aberta ao mundo; 
- Tem confiança ilimitada; 
- Recebe impressões sensoriais; 
- Não elabora julgamento ou análise; 
- Está na fase do desenvolvimento motor; 
- As percepções inadequadas são armazenadas no inconsciente (não compreende o pensamento dos adultos); 
- Aprendizado por imitação; 
- O educador Waldorf deve ser digno de ser imitado, pois nessa imitação inconsciente estará fundamentando sua moralidade futura. 
Característica: O bom. 
As características do processo evolutivo da aprendizagem e transmissão do conhecimento requerem um grande conhecimento por parte do professor Waldorf, e a ação pedagógica deve ser o agente facilitador deste processo, pois quando as respostas às expectativas dos estudantes são atendidas a aprendizagem tem caráter significativo. 

O estudante deve ter um acompanhamento do seu desenvolvimento integralmente, pois passa da infância à adolescência na escola. É a educação transcendendo a transmissão de conhecimento e cultivando devagar e com carinho o intelecto e a sensibilidade humana. 
A Pedagogia Waldorf trabalha a formação do indivíduo, é o chegar, fazer e ser. Ter mais sabedoria do que conhecimento e o professor deve atar tudo isso com um laço de amor partilhado. 

Como eu disse: não me lembro do meu primeiro dia na escola, mas não vou esquecer o primeiro dia do meu filho, do seu rostinho atento, da sua carinha de alegre ao comer, do seu olhinho brilhando. Não, não vou esquecer.

Anderson Mendes Fachina

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Hoje faz um ano

Aquele foi um dos piores dias de minha vida. Tive ali a certeza de que nunca devemos deixar as coisas que realmente importam para trás. Não adiantava chorar, não adiantava nada... Nada ia trazer ele de volta. Nada ia preencher o vazio que a sua partida me deixou. Um vazio, que já vinha sendo construído há tempos, mas que eu jurava, um dia, melhorar.
A última vez que o vi ele estava sorridente. Contente com a minha presença. Eu o abracei, sorrimos e mal sabia que seria a última vez nesta existência. Mal sabia que aquela despedida e a promessa de nos encontrarmos novamente seriam as últimas palavras.
Mas naquele dia, tudo acabou. Chorei e foi muito triste constatar que as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas não foram. Não foram. E, dali em diante, não poderiam ser nunca mais. Eu sempre o amei, mas julgava que a minha tristeza em vê-lo triste era maior que a própria tristeza que ele sentia. E esse tal julgamento que fazemos é inexorável. Sem dúvida, ele cai sobre nós como realmente merecemos.
Hoje faz um ano e sua memória ainda é viva em minha mente. A memória dos tempos felizes, quando sentávamos à mesa para comer, todos juntos. Lembro-me, como se fosse hoje, dos tempos em que sentado na garupa da bicicleta, andávamos por toda a cidade. Lembro-me de todos os esforços que foram feitos para que nós fossemos criados. Lembro-me da saudade que sentia quando ele trabalha fora. Lembro-me daquela tarde nublada qualquer em 1988 quando ele me ensinou a fazer uma dobradura de um pássaro, que mais tarde aprendi se tratar de um Tsuru. Lembro-me como se fosse hoje. Ele havia aprendido num desses serviços fora, quando pintava uma escola agrícola na cidade de Igarapava. Lembro-me de quando ele me abraçou chorando dizendo que meu avô, era o maior homem do mundo. Lembro-me de tudo, coisas boas ou ruins.
Onde quer que esteja saiba que penso em você todos os dias.

Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cavalo de cabo de vassoura - parte 2


Era apenas um cavalo de cabo de vassoura e estava definhando. Estava definhando tão rápido que o próprio não se dera conta do tamanho do estrago. O reino pelo qual ele caminhava com tanto entusiasmo não lhe pertencia, pois ele era apenas um cavalo de cabo de vassoura. Cavalos de cabo de vassoura não possuem reinos, no máximo, vivem neles, fazem parte do folclore local, mas em suma, não são donos, nem mesmo em parceria com outrem. Cavalos de cabo de vassoura sequer possuem baías ou estábulos, cochos ou selas. Não possuem nada.

E a rapidez com que as coisas lhe tomavam de assalto, a mesma rapidez que provocava a ilusão da luz cinza no fim do túnel, foi a mesma que o ajudou a definhar sem perceber. Essa rapidez o ajudou no processo do encontro e também no da despedida. Mas e agora? Por ser apenas um cavalo de cabo de vassoura o que lhe restaria? Seu mundo estava ruindo assim como seu próprio ser, sua essência. Era apenas um cavalo de cabo de vassoura.

Era apenas um cavalo de cabo de vassoura, e cavalos de cabo de vassoura não são mágicos. Não me lembro de sequer um desenho ou conto no qual um destes fazia alguma magia, fazia algum encantamento ou lançava não de alguma poção, varinha de condão ou mesmo um truque de circo. Cavalos de cabo de vassoura não são mágicos. E, se naturalmente a magia ali faltava e não lhe dava perspectivas de melhora, algo de muito ruim estaria por vir... E o tempo passou...

O tempo que para ele não existia passou. Mas como uma coisa que não existe passa? Como pensar que o senhor das horas e guardião do passado, presente e futuro, que para ele nada representava, pois era apenas um cavalo de cabo de vassoura, poderia agora lhe fazer alguma diferença? Como?

Parafraseando um gênio, os loucos, aqueles que são loucos o bastante para acharem que são capazes de mudar o mundo (e realmente são os que mudam), têm uma característica em comum: são atemporais, não se preocupam com o tempo, não se preocupam com os problemas, apenas vivem... E vivem intensamente. O passar do tempo que não existe, a loucura da irrealidade do status quo e a condição de uma existência efêmera causaram nele, o cavalo, um instante infinitamente pequeno de genialidade. Uma genialidade infinitesimal!

Certa feita, ainda no reino da Torre, quando se deitara em seus panos (cavalo de cabo de vassoura não tem baia) teve a permissão de se sentir plenamente num êxtase tão claro quanto o dia, e nesse profundo suspiro de resiliência, onde não se tem a noção exata do que é palpável e do que é etéreo, ele viu uma criança. Uma criança a qual ele conhecera naquele momento, mas de uma intimidade milenar (para cavalos de cabo de vassoura o tempo não existe). Muito antes de existir de fato, ela estava ali, de pé por entre as grades de um portão. 

Continua...

A continuação deste texto será lançada na próxima semana. Quem quiser acompanhar a primeira parte do conto acesse: http://caosfilosofico.blogspot.com/2011/04/cavalo-de-cabo-de-vassoura.html

Anderson Mendes Fachina

Tempo

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá aprender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”


As palavras iniciais de Santo Agostinho no livro XI “O homem e o tempo”, item 14 “O que é o tempo?”, constante de sua principal obra “Confissões”, traduzem fielmente aquilo que a grande maioria de nós pensa acerca da questão do tempo, ou seja, quase nada. Quando tratamos pessoalmente a questão, dizemos que o tempo é infinito, que não pode ser medido, que tem importância para nós enquanto encarnados, etc., etc. e etc. Mas, quando a questão foge ao parâmetro pessoal e nos vemos na qualidade de expositores do tempo, enxergamos que a questão é muito mais profunda que a superficialidade que empregamos outrora. Não que essa superficialidade seja inadequada para tratar da questão, mas quando evocamos nossa capacidade de reflexão e nossas concepções filosóficas começam a atuar sob nossa mente, chegamos a uma conclusão também superficial, mas, reveladora: há muito mais a se pensar sobre o tempo do que podemos neste momento. Pronto, encerramos então a questão: O tempo não deve ser discutido de maneira mais profunda porque não dispomos de capacidades que o possam delinear como tal. Certo? Não?

Para aqueles que se dispuseram a pensar sobre o tempo, vemos que o simples encerramento da questão não é caminho louvável, já que as concepções filosóficas que carregamos conosco não nos deixam outra saída senão filosofar ainda mais, investigar ao máximo a questão, para saciarmos nossa sede. No capítulo VI da Gênese dizem os espíritos:

“Como a palavra espaço, tempo é também um termo já por si mesmo definido. Dele se faz idéia mais exata, relacionando-o com o todo infinito. O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito. [...] Dentro desta ordem de idéias, fácil nos será conceber que, sendo o tempo apenas a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente das coisas que se medem, se tomássemos os séculos terrestres por unidade e os empilhássemos aos milheiros, para formar um número colossal, esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade... [...]... a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?!”
Num primeiro momento, numa observação bem rápida, percebemos que os espíritos procuram encerrar a questão fechado o tempo como sendo uma sucessão de coisas. Mas, se colocarmos nossos olhos sob a questão que encerra o exposto, vamos voltar a nos perguntar: o que é o tempo então, se sendo uma sucessão de coisas ele representa quase nada para a eternidade? E vemos que, na verdade, os espíritos dizem mais do que as palavras traduzem.

Para encerrar a questão, ou melhor, começá-la novamente em outros níveis, voltemos a Santo Agostinho. Diante de sua reflexão, Agostinho invertia a perspectiva acreditando que nós não vivemos dentro do tempo e sim ele habita em nossa mente. Para fundamentar sua conclusão, utilizou da lógica de que o que existe, existe, ou seja, é. Então pensou: Se o passado já passou, não o é mais, então não existe. Se o futuro ainda não chegou, não o é ainda, então também não existe. O que fica então? O presente? Também não, porque ele só existe em se comparado ao passado e futuro.

Dentro desta perspectiva, onde chegamos a constatação agostiniana de que o tempo como o concebemos não existe, nos posicionamos em tese ainda mais preocupante. Se não há presente, futuro ou passado, o momento que passamos agora é o mais importante de toda a nossa existência. E assim o sendo, deve ser encarado como tal. O que estamos fazendo com o nosso tempo então? Vivemos dentro da lógica de que tudo é tão precioso dentro de nossa evolução que não há como deixar de ser espírita por um só minuto. Façamos então que nosso tempo seja construído da melhor forma possível, sempre no caminho do bem.

Fontes: Santo Agostinho. Confissões. Nova Cultural, São Paulo: 1999, pág., 322-340 e A Gênese – Os milagres e as predições segundo o espiritismo. Capítulo VI pág. 103-107.

Anderson Mendes Fachina

Texto originalmente publicado no site Rede Amigo Espírita em 19 de janeiro de 2011: http://amigoespirita.ning.com/profiles/blogs/tempo-1

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O escolhido ou da bunda de calça plástica

Eu perdi este texto uma vez, isso já foi há uns dois meses. O escrevi, fiquei super contente com a redação, mas por um descuido no manuseio do mouse e do enter, acabei deletando-o completamente e salvando um texto por cima. Era a deixa, não era para ser publicado. Ponto.

Acontece que esta noite eu voltei a pensar nele. Sua reprodução não será fácil, mas vou tentar ser o mais verossímil possível. Tentarei.



Há uns dias atrás, depois de um exame, a fonoaudióloga que atendeu meu filho foi taxativa: “O Raphael não apresenta um reflexo, ele vai ter que passar pelo neuropediatra”. O possível problema acendeu um alerta na minha vida e de minha esposa. Fiquei muito triste, apesar de ser forte o bastante para aceitar e lutar por qualquer coisa nesta vida. Mas pensar que aquela coisa tão pequenininha, tão linda, pudesse sofrer por algo, me cortou o coração. Rezei como nunca pedindo para que qualquer coisa que o acometesse, acontecesse comigo e não com ele. Senti o peso da responsabilidade de ser pai. A palavra neuropediatra era muito forte, era muito dolorosa naquele momento.

Naqueles dias, sonhei com meu pai e com tudo o que aconteceu em nossa vida. Também havia sido muito triste perdê-lo no começo deste ano, principalmente porque eu entendi que poderia ter feito tanta coisa diferente. Infelizmente a vida não nos é perfeita como gostaríamos, mas como fazemos por merecer.

Um dia a tarde, depois de uma jornada mega estressante no serviço, com a cabeça cheia e triste pelo meu filho, cheguei em casa e o peguei nos braços, como sempre fazia. Sentei com ele na sala, tirei os meus sapatos e comecei a falar com ele. Olhava para aquela coisinha linda e dizia: “o papai está aqui meu filho, sempre estará”. Mais que instantaneamente, comecei a chorar. A tristeza era muito grande. Foi então que o inesperado aconteceu. Pela primeira vez naqueles poucos meses de vida, meu filho deu uma gargalhada. Ele já sorria há tempos, mas foi a primeira vez que seu sorriso tomou contornos sonoros. Foi uma gargalhada que me fez soluçar. E o soluço acabou com o choro, acabou com a tristeza, acabou com tudo. E eu sorri também. Sorri e entendi o recado. Meu filho, naquele momento, mostrou a pureza de coração que lhe fazia me ensinar. Ensinar que a vida é mais bem vivida com um sorriso, independente da situação.

Toda a apreensão antes da consulta com o neuropediatra foi substituída pela certeza de que a vida, assim como acredito, é o nosso quintal, nosso canto, onde vivemos (ou deveríamos viver) intensamente. Aprendemos com tudo e caminhamos no intuito de sermos pessoas melhores que outrora. Pessoas mais conscientes da vida, do amor, das relações com as pessoas próximas, das relações com o mundo e com as coisas divinas.

Aquela gargalhada foi a certeza de que se alguma coisa estivesse realmente acontecendo, seria muito mais fácil se nós nos uníssemos, na assertiva de que seríamos capazes de ser a família que sempre sonhamos. E ele estava certo. Sua gargalhada era o sinal de que tudo estava bem, tudo estava em ordem, tudo estava dentro da normalidade, mesmo que a normalidade não fosse a corriqueira. Tudo estava certo. Certo de que certo seria. Certo de que o amor seria sempre nosso esteio.

A consulta passou. Nada foi detectado. A única coisa que ficou constatada é que a vida sempre vence, apesar de tudo. Mesmo nos mais difíceis e inóspitos ambientes, ela existe, e com um único propósito: fazer-nos viver. Fazer-nos viver sempre.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Anjinho de chifre - Caricatura da vida real

Ela consegue alegrar qualquer ambiente aonde chega. Tem uma luz muito forte e isso a faz ser uma pessoa diferenciada dentre os tantos “zumbis” que temos por aí. Tem na sinceridade seu ponto forte e trabalha como se o mundo fosse seu quintal. Quando me encontra, sempre diz que precisa de um psicólogo, por isso adora falar comigo. Quando a encontro penso: “é a minha sessão que vai começar”.

Lembro-a ainda pequena, correndo pelas ruas nas cercanias da minha casa. Sempre brinco, dizendo que a vi correr descalça e molambenta como um molequinho, subindo e descendo das árvores. Lembro-a ainda jovem, quando a julgava esnobe, uma verdadeira “patricinha”. Tenho-a como amiga agora, pois conheci sua essência, seus problemas, seus anseios, suas conquistas e principalmente o seu coração e mais uma vez entendi que a pessoa só pode ser realmente conhecida quando temos um contato mais próximo a ela.

Ela é o que é e ponto. Fala, sem ressalvas. Mostra o que é sem medo. Vive como qualquer pessoa neste mundo, mas vive pra ela, com seus problemas e suas qualidades. Não quer ser um fac-símile, não quer ser um plágio de alguém.

Ontem conversamos. E cada vez que a vejo ela celebra minha felicidade e eu celebro a sua. Eu torço por ela, ela torce por mim. Ela comentou seus anseios, eu ponderei que ela sempre tem que escolher o caminho que lhe parece melhor. Ela pediu segredo, eu disse que isso não era necessário. Sua vitória é iminente, sei disso.

Como um anjo, ela sempre tem o que falar. E fala. Uma vez ela disse, “dê uma chance para a sua vida, você vai ver como vai ser melhor”. Em outra ela disse, “vai, aceita, não fica com medo”. Ou seja, ela sempre conseguiu quer seja incentivar quer seja “chutar o pau da barraca”. Assim é sua vida. Ela sabe o que é certo e preza isso em sua decência. Mas não é boba, não é influenciável, não é uma pessoa que pode ser passada para trás. Ela é. Simplesmente isso.

Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cara de Pedreiro - Caricatura da vida real

Sem desmerecer qualquer tipo de profissão que seja, aliás, já fui pintor, servente de pedreiro, trabalhei em fábrica de artefatos de cimento, entre outros. A questão não é essa. A questão é que descobri que tenho cara de pedreiro. Fato!
Outro dia resolvi levar minha aliança para arrumar, uma vez que ela estava ligeiramente torta e incomodando. O veredito do atendente da joalheria foi um só. Olhando pra mim disse: "Isso é assim mesmo a aliança sempre vai entortar, vocês que têm essas profissões pesadas, não tem como não acontecer isso".
Eu não sabia se ria. Olhei para outro lado tentando disfarçar o riso quando pensei há quanto tempo não trabalhava com nada pesado, aliás, o meu único esporte radical nos últimos anos é "carregamento de chumaço" e acontece quando acaba a folha de A4 da impressora ou da fotocopiadora (a popular máquina de Xerox) e eu tenho que buscar um bloco no almoxarifado. Pensei, “de onde esse cara tirou isso”. E olhando para o lado me deparei com um enorme relógio de parede, daqueles lindos, que a gente queria ter em casa. Quando olhei com mais atenção para o relógio vi, num pequeno espelho que o ornava, uma cara muito conhecida, uma cara de pedreiro.
Não dá pra esconder, tenho cara de pedreiro. O atendente estava certo em seu comentário. Mesmo que eu não fizesse nada, a ordem natural das coisas faria minha aliança entortar. A vontade de riso virou vontade de choro. Não, não tenho cara de estivador, de chapa, de carregador ou mesmo de lenhador (essa foi boa), tenho cara de pedreiro.
Bom, fazer o que? Vamos que vamos!
Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mais vale a busca pelo viver do que viver um não viver

Refletindo sobre uma troca de tuites com amigos, falávamos sobre a alienação da vida, as escolhas que muitas vezes nos levam a uma espécie de não vida e também sobre a dificuldade de continuar buscando por lampejos de uma vida real.

Lembrei-me de uma história, em que um psicanalista cuja analisanda era atormentada em sonho por um monstro de mil faces. Por ter esse monstro mil faces, não tinha como se concentrar em um rosto. O psicanalista pediu-lhe, por isso, que deixasse de tentar identificar o semblante do monstro e se limitasse, da próxima vez, a despistá-lo, vagando a esmo por toda paisagem que se apresentasse como caminho possível.

Seguiu à risca o conselho, andou por um bom tempo a passos firmes. Um grito ao longe a assustou. Começou a correr. Corria, corria e corria. Olhava para o lado e o monstro colado à sua sombra. Percorreu um longuíssimo caminho. De repente, exausta, sobrou-lhe somente entrar numa ruela escura e sem saída. Lá, sem mais alternativas, viu-se no fim da linha. Encurralada, prestes a desfalecer, olhou nos olhos do monstrengo e perguntou aterrorizada: "O que você vai fazer comigo?" Eis que responde atônito o monstro: "Não sei, não tenho como saber. O sonho é seu!"

Deixando esta história de lado por alguns instantes, me vem a questão se podemos de fato ou não ser donos de nossas escolhas.

Para alguns filósofos, as paixões que nos impelem para participar dos acontecimentos da vida e do mundo, são meras agitações do espírito, já que no curso dos fatos da vida - pessoal, coletiva e cósmica - estamos submetidos a férreos determinismos.

Outros pensadores acreditam que o ser humano é dotado de livre-arbítrio e que com isso, podemos responder à contento ao desenrolar dos acontecimentos da vida, tomando posição, recriando as situações e nos recriando à partir delas.

Voltando à história, que me pareceu muito oportuna para o tema, pois ilustra de alguma forma que mesmo que estejamos vivendo em sonho, e que em algumas situações nos achemos encurralados por monstros sombrios em situações que não vemos saídas, ainda assim, tal sonho ainda nos pertence.

Como apregoa o budismo e muitos outros filósofos – como Aristóteles - e até mesmo o mais popular dos cantores da década de oitenta, Renato Russo (liberdade é disciplina), a liberdade está em desapegar-se.

De qualquer forma, essa afirmação merece uma melhor reflexão.

É inegável que os planos mais importantes do nosso ser, na maioria das vezes nos são desconhecidos. Temos consciência apenas parcial de quem somos. Não sabemos exatamente por que somos ou o que somos. O que torna mais complexo ainda essa busca pelo que somos – e que possivelmente qualquer luz a esse respeito, refletiria na experiência de um viver mais autêntico – é a oferta fácil e abundante que temos à nossa volta de um consumo irrefreado e uma busca ávida pelo prazer fácil, nos afasta facilmente dessa experiência autêntica.

A teatralização das relações contemporâneas - permeada pelo individualismo que isola e pela busca de uma falsa felicidade no consumo, sem contar as muitas outras ferramentas de alienação – só nos faz aprimorar a teatralização da persona que querem que nos tornemos, com isso, nos afastando da persona autêntica que podemos nos tornar.

Estamos à mercê da crença de que a técnica e o consumo são as panacéias para uma vida feliz. Nessa busca irreal pela felicidade, nos afastamos do conhecimento sobre os desejos que nos alimentam e dos conflitos que nos devoram. Acabamos por não compreender as tramas vivenciais que se desenrolam à frente dos nossos olhos e com isso, somos facilmente abatidos por uma angústia existencial que aplaca nossa vontade de seguir em frente buscando.

Desconhecemos a importante dialética entre o pensar e o agir. Razão e sentir deveriam caminhar juntos, mas excluímos um pelo outro, abrindo mão do sentir verdadeiro, por uma razão que desemboca numa técnica desumanizante, na forma de novos e desnecessários produtos. Com isso, nos tornamos órfãos desse sentir mais profundo, afetando a construção de nossa identidade, nos transformando em meros autômatos.

Como disse meu amigo em seu tuite, chega determinados momentos que essa busca cansa, se torna exaustiva. Mas ainda fica a questão: o que estamos buscando de fato? Se estamos buscando a construção de uma nova identidade que transcende o comportamento autômato e consumista, persona que se constrói na solidão do ser, é fato, mas que ao menos em hipótese, poderia nos dar um lampejo de uma vida autêntica, ainda que somente um lampejo, já não valeria por toda exaustão?

Enfim, não tenho tais respostas. Desconfio não ter vivido ainda tal lampejo, mas como diz o provérbio: "O mais importante não é chegar, mas sim o caminho percorrido até lá."

Krisnatágoras Araújo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Você faz parte desta caminhada

Às vezes a gente não mede o quanto pode influenciar a vida das pessoas que nos rodeiam, ou que simplesmente tem contato com aquilo que somos. Não se tem a noção do como isso se processa e muito menos como atuar neste sentido. Há duas semanas, fui convidado a participar de uma celebração religiosa muito especial. Um grande amigo, Luís Paulo Soares de Oliveira, enviou-me um convite para a sua ordenação como diácono da Igreja Católica, passo imediatamente mais próximo do título de padre. Trata-se de uma pessoa muito boa, de coração e mente e que, quando estava iniciando sua missão, conversava comigo demais sobre religião, filosofia, vida, cotidiano. Conversávamos demais porque era bom conversar com ele. Suas concepções de vida eram interessantes e nossa amizade girou em torno desta presença de espírito. Ele falava de sua escolha com brilho nos olhos. Discutíamos isso: certezas, dúvidas, caminhadas... Eu sabia que ele venceria e pude acompanhar isso de perto agora.

A vida sempre afasta as pessoas, quer seja pela distância física, quer seja pela distância temporal, quer seja pela modernidade da vida cotidiana. Ele seguiu o seu caminho e seu sonho. Nunca mais nos falamos como antigamente. O vi recentemente numa situação não muito boa. Quando estava muito triste pelo desencarne de meu pai ele compareceu para falar algumas palavras reconfortantes. Suas palavras tocaram fundo o coração de todos, sei disto.

Durante a celebração, muita emoção, muitas lágrimas... Tudo pela sensação de ver alguém seguindo o seu caminho como pensou seguir. Poucas pessoas nesta vida têm a vida que gostariam de ter. Umas pela falta de oportunidades, outras pela falta de vontade, outras por terem oportunidades demais jogadas fora.

Ao final, fiquei durante um bom tempo na fila para poder dar-lhe um abraço. Aquela espera mostrou o quanto ele é querido pelas pessoas. Ao chegar minha vez, um abraço forte, pose para uma fotografia e, quando ia saindo ele disse: “Você sabe que faz parte desta caminhada”. A frase proferida por ele me lançou longe. É claro que minha possível participação é infinitamente mínima. Mas sua frase me fez pensar muito sobre minha vida. Quantas vezes influenciei alguém e quantas vezes fui influenciado? Quantas vezes fiz alguém ficar bem e quantas vezes levei a tristeza? Quantas vezes fui um bom amigo e quantas vezes falei o que não devia, o que só atrapalhou? Pensando sobre isso me lembrei de tanta coisa boa que fiz e proporcionalmente lembrei-me também de várias vezes que machuquei alguém. Triste. Não precisava disso. Porém, hoje sei disto: a experiência nos torna pessoas melhores. Quem não aprende com a experiência, não viveu.

Recentemente tive uma experiência de como as pessoas nos fazem bem. Estava triste e convidei uma amiga para ir a um show comigo. Ela foi maravilhosa, companheira e protetora. Trata-se da amiga Cristina dos Santos Monteiro, uma de nossas colaboradoras. Compartilhamos mais sobre a vida dela e falar me ajudou a refletir mais. Como se não bastasse ela ainda escreveu um texto para este blog (http://caosfilosofico.blogspot.com/2011/05/teatro-prefiro-o-magico.html) narrando a importância de nossa amizade. Teatro? Prefiro o mágico... Me fez um bem...

“O que levei dessa noite, porém, mais que qualquer outra coisa, foi a confirmação de uma verdade cada vez mais presente em minha mente, de que os momentos de comunhão com quem se ama são a maior dádiva dessa vida confusa, atribulada, que por vezes nos traz apenas decepções, cuja superação parece impossível, quando se está ali, tão dentro desse processo complexo que é sentir...”

A partir de agora vou tentar medir mais isso. Vou tentar ser mais amigo, mais sincero, mais companheiro. O que atrapalha, não interessa. O que nos faz melhor e mais felizes é o que importa. Obrigado a todos meus amigos. No final de tudo, sou a construção de tudo aquilo que envolve a minha vida e assim sendo, sou eu, sou vocês.

Parabéns Luís Paulo, parabéns a todos aqueles que vivem seus sonhos!!! Obrigado Cristina, obrigado a todos aqueles que nos fazem sentir bem!!!

Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 26 de abril de 2011

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Feliz é a inocente vestal!
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança
Alexander Pope

Ele descobre que ela o apagou da memória. Num impulso de raiva e desespero ele procura o mesmo. Durante o processo, enquanto sua memória é vasculhada para o apagamento, ele se dá conta de que ainda a ama. Mas o processo mental está em curso. Ele esta desacordado com a cabeça cheia de aparelhos e fios. Sua mente trabalha no sentido de brecar o processo. Ele tenta, tem sucesso relativo. Mas o processo é irreversível. As lembranças dela estão sendo sumariamente apagadas. É o fim.

Este é o enredo de um dos filmes que está no meu Top 100: “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Ontem, pela indicação de uma amiga, li um texto que citava o filme e me lembrei que havia escrito sobre ele (havia o usado como pano de fundo). É realmente um filme cativante, que sabe captar a alma de um relacionamento confuso, um encontro inesperado e uma história de amor. Além do que as interpretações de Jim Carrey (saindo daquele humor piegas), Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood e Tom Wilkinson são, sem dúvida, uma das melhores de suas vidas. Peguei este arquivo, à tarde assisti novamente ao filme e trabalhei mais uma vez o texto. Precisava escrever. Precisava pensar em algo. Precisava ocupar meu coração com algo. Espero que todos gostem:

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Ele corre pela areia. A vê a distância. Sua visão é a chama para a rapidez que opera neste momento. Não há falta de ar, não há suor e não há cansaço que o faça parar de correr neste momento. Run, Lola, Run. Mas corre e a imagem se afasta. Corre mais. Corre como nunca. Quando enfim se aproxima, ela desaparece. Sua imagem se foi, desintegrou-se no espaço.

Ele fica desapontado. Olha para o horizonte sem entender o que está acontecendo. A história de sua vida estava ali, mas lhe escapou por entre os dedos. Ele senta na areia e chora. Chora. E a cada lágrima uma passagem lhe vem à mente. Sua mente está conturbada, confusa. Ele não sabe mais o que pensar. Vê tudo aquilo com uma maravilhosidade ímpar, ao mesmo tempo em que tudo passa num frenesi tão incontrolável que o entorpece. Ele está entorpecido olhando para o mar, olhando para as ondas, olhando para dentro de si.

A pergunta que sempre lhe ronda a mente vem á tona: onde foi que eu errei? Onde? Ele a amava. Ela sabia disso. Ela o amava. Ele sabia disto. Num rompante de embriaguês mental ele fecha os olhos. Ao abrir, não está mais frente ao mar. Esta em casa, na sua cama. Olha para o teto, o ventilador funciona em câmera lenta. Então ele olha do lado e a vê, ali, dormindo profundamente. Tenta acordá-la. Ele não responde aos seus estímulos. Ele olha para o espelho na parede e não vê o seu reflexo. Somente ela, ali, dormindo profundamente. Levanta-se nervosamente. Está sem seu pijama favorito. Ele olha novamente e vê que não está mais em casa. Não está no quarto dela. Tudo é estranho, tudo é novo e assustador. Entra em pânico. Grita em direção aquele corpo imóvel. O corpo se mexe, sem sucesso. Nada é mais como era antes.


Numa fração de segundos, lembra do início deste processo doloroso. Ela queria esquecê-lo, tirá-lo de vez da sua vida. Por qual motivo mesmo? Para ele aquilo ainda não estava claro. Muita água havia passado por debaixo da ponte sem que ele percebesse. Sua mente agora lhe fala: “É isso, se ela não te quer, não há motivos para querê-la”. Houve-se um estalo ensurdecedor. Mais uma vez ele olha para o espelho. Agora se enxerga. Está ali, feio, forte e formal. Sua face está irreconhecível, mas é ele. Seu coração está machucado, mas é ele. Suas roupas já não são as mesmas, mas é ele. Sua alma foi corrompida, mas é ele. Havia feito coisas que não queria, mas, sem dúvida era ele. Ele sorri, nervosamente. Ele sorri amarelo.

Ela enfim parece acordar. Ele se assusta. Estava tomado por si mesmo. Lembra também o porquê daquilo tudo: A amava. Ela abre sorrateiramente os olhos. Ele, também sorrateiramente sai de seu campo de visão e a olha a distância. Ainda meio sonolenta ela diz: “amor, você está aí?”. Ele não responde. Ele emudece. Ela se vira do lado e parece voltar a dormir. Ele se desespera: “o que estou fazendo?”. Mais uma vez se aproxima. A toca e neste momento, mais uma vez ela some. Ele olha ao redor. Está sentado em sua sala vendo TV. Está sentado. Teve sua oportunidade e não aproveitou. Não aproveitou.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 24 de abril de 2011

Cinco minutos depois de...

Primeiramente gostaria de deixar minhas sinceras desculpas. Justificativa: Se eu não fizesse isso, não seria eu. Faço não por que quero que penses alguma coisa. Faço sem intenção de despertar alguma coisa ou mesmo fazer uma surpresa. Faço porque sigo um velho conselho de minha mãe, que me foi dado quando ela foi chamada a comparecer à escola pela primeira vez, eu tinha 7 anos. Lembra daquelas balas que vinham grudadinhas, numa tira? Só quem tem mais de 30 sabe do que estou falando. Ah, então. No meio da aula eu subi na carteira e rodei uma daquelas tirinhas no ar dizendo: “quem quer bala?”. Claro que a professora me pôs de castigo e mandou chamar a minha mãe. Na sala da diretoria, aquele dia, minha mãe disse uma coisa que marcou a minha vida. Ela não estava brava com a minha atitude, somente disse que não poderia fazer isso na aula. E, ao pé do ouvido me disse, contrariando a recomendação que acabara de dar: “Filho, sempre faça o que o seu coração mandar”. E não poderia ser diferente.

Meu coração pediu para que eu fizesse isso e, sem muitas perguntas resolvi atendê-lo. Nestes dias tenho o contrariado tanto... Ainda não me arrependi, mas isso é iminente, assim como dois e dois são quatro.

Nunca sua frase “nossa história só tem coisa bonita” fez tanto sentido assim. Nestes dias eu me esforcei em olhar de fora. Assim sendo, comecei a entender tanta coisa. Era como se tivesse feito o download de toda nossa história em segundos. Entendi minha “missão” e visualizei a sua. Tudo tão claro, tão limpo, tão palpável. O que tiver que ser, será... Agora entendo e sigo em frente. Sem renunciar a nada, sem esperar por nada, apenas sigo olhando pra mim.

Lembro de todas as frases pra mim dirigidas. Lembro de todas as frases por mim dirigidas. Lembro-me de todas as passagens, todos os momentos, todos os suspiros, todos os carinhos, todos os beijos, todos os olhares, todos os pqps, lembro-me de tudo, mas de tudo mesmo. Aliás, como digo, não há como lembrar aquilo que ainda não esqueci, que não me saiu da mente. É tudo tão vivo. Tudo tão colorido. Só coisa boa, tens razão.

Tudo o que te disse até hoje é verdade. Tudo mesmo. Não retiro nada, nem um hominho. Aliás, eu agora os cultivo como ouro em essência. E como não poderia deixar de ser diferente, como num passe de mágica, em tantos lugares para eu parar neste reino tão vasto, escolhi justamente a sombra pela qual a Torre se deslocava. Além da coincidência do local, há também a do horário, do momento em que resolvi enviar meu sinal, do momento em que resolvi olhar para baixo. São tantas. Enquanto mandava meu sinal de fumaça e enquanto este era recebido, vi, alí, a menos de 20 metros, toda a beleza inundando a rua. Coisa do destino? Sei lá.

Enquanto me deslocava vinha pensando sobre tudo. Tudo passa como num filme pela minha mente. Adoro filmes. E melhor ainda quando se tem a sensação de que estou dentro dele, que faço parte de uma série de acontecimentos que, ao final, faziam parte de uma trama muito, mas muito fantástica. Tudo muito ritmado, tudo muito entrelaçado, tudo muito bem costurado. Não a lá Tarantino, não a lá Scorcese... Apenas uma história de vida, uma história que muito bem poderia não ter acontecido, mas que se fez presente e encheu aqueles que dela participaram de orgulho. Orgulho de compartilhar uma época e uma existência. Orgulho de ter feito aquilo que quis, quando quis, como quis e ainda maravilhosamente bem. Essa é minha sensação. Sensação de ter feito tudo o que eu podia ter feito. Claro que não fiz, mas fico sempre na expectativa de ter feito o melhor, o que estava e o que não estava ao meu alcance.

Hoje a história não é contada na terceira pessoa "ele". Hoje a história é narrada em primeira pessoa. Primeira por que o narrador desceu (ou subiu) ao palco. Entrou em cena, mostrou sua cara, abriu seu coração. Agora a platéia sabe quem é ele. Sabe quem agora ocupa o lugar de destaque (ou não) no filme. Uma emoção com rosto, um sentimento com sorriso verdadeiro, uma voz com presença ativa.

A história segue, como deve seguir, como deve ser, como deve acontecer. "Seu investimento sem maiores pretensões foi a sua maior conquista". "Pensa num cara que te deseja". "Pensa num Snoopy feliz". "Deus abençoe as...". "Agora sim eu vi vantagem". "Essa é a hora em que eu me dou bem". "Ah, você aqui na sorveteria, quanta coincidência”. “Feche a janela”. “Chega aqui, deixa eu te mostrar uma coisa na geladeira”. “O que faz metade de mim neste momento”. “Cavalo de Cabo de Vassoura, sua Torre está em perigo”. “Sabe quando rimos por algo deliciosamente levado que pensamos ou dizemos?”. “Por mais que eu pense, não consigo achar coisa melhor pra ter me acontecido que você”. São tantas, mas tantas as frases e passagens que compõem esse roteiro. Como dizia a música: “Tanto clichê, deve não ser”. Clichê que nada, tudo foi o que deveria ter sido. Tudo foi o que foi. Sou o que sou, lembra?

Como disse, essa história ainda não acabou. Não que ela continue da mesma forma, não que ele continue de outra forma, não que ela continue. Já nem sei mais o que estou dizendo. Já nem sei mais o que... Como diria meu mentor intelectual Sócrates, “Só sei que nada sei”. Só sei que foi assim!

Anderson Mendes Fachina