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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Jacrocacas, crocarés, bichos malvados na água!

Ontem fez três anos. Três anos se passaram e sua presença ainda é imensa. Durante todo o ano eu pensei nessa frase e no seu sorriso ao proferi-la. Ah, eu gostava muito de ler gibis. Assim como o “Pateta” e sua ingenuidade, toda a carga de inocência mostrava o quão era bom dar uma gargalhada dessas.

Jacrocacas... Cocrarés... Bichos malvados na água... Você repetia isso com um olhar tão brilhante... E seu sorriso... Seu sorriso era intenso... Forte... Lindo.

Não um minuto... Uma eternidade em silêncio... Um até breve...


Anderson Mendes Fachina



2013
2012

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Habitué

Ela sempre tem o sorriso mais lindo no rosto. Sempre tem uma energia muito bonita quando sorri. É simples, complexa, profunda e inexata. Carrega em seu semblante as marcas de uma pessoa que tem coisas pra contar, mesmo que ela se negue a contar essas coisas. Tem um amor no coração muito grande. Gere sua cria como quem a defende dos animais mais perigosos. Aliás, essa foi uma revelação que a sua meiguice escondia por entre os cabelos encaracolados.

Num certo dia, numa ponte, conheceu um jovem. Um jovem que foi premiado pelo universo. E o encontro, inusitado, foi banhado pelo futuro, levado pelas correntezas e incertezas do que há por vir, levado pelo encanto do afronto, do embate, da resenha.


Caminha pelo mundo prestando atenção em cores que nem sabe o nome. Mas isso não a impede de criar, de tentar, de inovar, de sentir em suas mãos o poder da criação. Mesmo que esta dure apenas poucos segundos. Ela não pára. Não consegue manter suas mãos em repouso, mesmo quando a mente já não quer mais, mesmo quando o corpo já não agüenta. E olha para aqueles aos quais acolhe com seus ensinamentos como quem enxerga agulhas em um palheiro, como quem vê luz num túnel longo, frio e escuro. E todo momento ela enxerga.

Não tem a sofisticação como um habitué, motivo pelo qual essa palavra não lhe caberia se não fosse pronunciada pela própria. Mas como as congruências caminham lado a lado, as excentricidades se dão ao luxo de acontecer, já que nada pode ser tão fácil assim. E dizem que quando uma situação se repete, tem-se a certeza de que acontecerá novamente. Estamos esperando.

Do ponto de vista simples, ela o é da maneira mais clara possível. Do ponto de vista complexo, vê-se que sua identidade, digamos, menos explícita, é algo a se considerar a ponto de não haver nenhum tipo de subestimação. Aliás, quando isso ocorre, há a possibilidade enorme de erro. E ela não os admite... É perspicaz. E tenho dito. E tenho visto. E tenho imaginado esse sorriso.


Anderson Mendes Fachina

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Da mihi castitatem et continentiam, sed noli modo (2)

continuação...

Ainda não havia dormido, mas os pensamentos começavam a serenar, a ponto de conseguir relaxar um pouco. Foi assim e isso não poderia ser mais mudado. Acordou pela manhã com uma disposição que há muito não apresentava. Voltou a ler sua revista preferida, profetizou algumas palavras de ânimo e mais uma vez saiu em busca de algo.

“Ela estava imóvel. Imóvel como o tempo até então. O ar parado, o sentimento de exagero e as condições mentais em que ele se encontrava eram ingredientes propícios para ver, mesmo que os olhos não registrassem. Andou mais um passos. Titubeou entre um e outro. Mas um misto de enfretamento e curiosidade lhe era mais claro naquele momento. E foi. Ou melhor, foi-se. Ou melhor, ainda ela havia ido, havia deixado aquele plano. E aquilo não era um corpo propriamente dito, era mais uma imagem... Apenas mais uma, se pode-se dizer assim. Apenas mais uma naquele quebra-cabeças que ela alimentava a passos largos. Mas nada que lhe fosse desconhecido, nada que lhe fosse novo.

Naquele instante pensou em seu genitor. Pensou em suas últimas palavras e na condição de tutor ao qual havia se posto. Pensou no que foi dito, no que ficou por entre as linhas e naquilo que nem dito havia sido. É era justamente esse dito – não – dito que lhe tirava a respiração. Nada, nada, nada. Tudo, tudo, tudo... ‘Que oportunismo’, pensou. Ou melhor, ‘que oportuno’. Não poderia então ser diferente. Ele estava decidido. Decidido em fazer o que já deveria ter sido feito desde sempre. Mas que lhe era bastante doloroso. Tinha que fazer e ponto. Conseqüências? Não, congruências. Nada poderia voltar ao seu devido lugar depois daquilo. E nada daquilo encontraria lugar em sua vida. Simples assim”.


Entrou no carro e seguiu em frente. Não sem antes engatar uma ré para manobrar.

Continua...


Anderson Mendes Fachina

domingo, 27 de janeiro de 2013

Da mihi castitatem et continentiam, sed noli modo


O episódio da noite das tormentas, como ele próprio definiu ainda não lhe saía da cabeça. E pensar que já se haviam passado vários dias, mas as cenas daquele fatídico dia ainda lhe eram claras como o dia, era uma coisa deveras pesada. Ele precisava tirar isso rapidamente de sua mente.

A cada minuto sua mente era alvejada com uma lembrança penosa. E entre uma conversa e outra, uma tarefa e outra, as coisas em sua mente pareciam ainda piorar. Remoer as coisas é o que destrói nossa mente, pensava. E em meio ao pensamento, as cenas, os lances, as lembranças. E assim sendo, as dores de cabeça eram constantes. Dormir então, nem pensar. Mas, contrariamente à presença de seus pares, era na solidão da noite em que seus pensamentos destrutivos eram mais bombardeados.

O entendimento da mente ainda é um campo que caminha a passos lentos. Não há muita lógica em certas coisas. Não há coisas em certas lógicas. Era então no silêncio das falas que seu pensamento fazia os melhores julgamentos. Mas era neste mesmo silêncio que as construções mentais também eram superdimensionadas. Ao mesmo tempo em que refletia melhor sobre o ocorrido, criava novas situações a partir da já famosa mola de pensamento: “e se?”. E naquela noite uma nova história foi criada nesse campo tão fértil.

“Já se passavam alguns minutos das nove horas da noite. Ele andava a passos largos sem olhar pra trás. Seu celular já havia tocado algumas vezes e ele nem se deu ao trabalho de ver quem poderia ser. A velocidade das passadas aumentava à medida que parecia estar mais próximo de sua parada. Mas os quarteirões pareciam se infindar. E os passos mais rápidos aumentavam ainda mais. Mas ele viu a porta. Ela estava lá. Chegou. Abriu. E entrou sem pensar em mais nada.
Mais uma porta e um lance de escada depois ele a avistou. Estava sentada lendo algo. Ele a chamou pelo nome. Ela não respondeu. Ele a chamou com mais firmeza. Mas não encontrou resposta. Tocou em seu ombro e a sacudiu. Ela estava imóvel...”

O sonho acordado lhe visualizou uma nova possibilidade que talvez se encaixasse perfeitamente na obra como um todo. Já eram quatro horas da manhã e ele ainda não havia dormido um minuto sequer.

Continua...

Anderson Mendes Fachina

domingo, 13 de janeiro de 2013

Supermemórias


Eu era muito pequeno e já andava contigo na garupa da bicicleta por toda a cidade, principalmente aos domingos pela manhã. Lembro de um short azul, uma camiseta amarelo claro e uma conga azul que eu usava na maioria de nossos passeios. Lembro-me da sensação de vento no rosto, do gostinho do sol e da sua companhia, que sempre era muito boa. Cruzávamos a pista sempre com atenção aos carros que ali passavam em alta velocidade. Naquela época a pista nem era duplicada, nem todas as ruas de nosso bairro eram asfaltadas, não existia cadeirinha de bicicleta e eu ia pra escola de mãos dadas com minha irmã. Outro tempo. Outro tempo que não volta mais. Outro tempo onde nossas brincadeiras eram inocentes, porém muito imaginativas, pois tínhamos nosso próprio mundo de fantasia.

E sair contigo de bicicleta aos domingos fazia parte deste mundo fantasioso. Andávamos meio que sem rumo, mesmo sabendo eu que haviam algumas paradas obrigatórias durante esse trajeto. E esses locais de parada sempre foram muito bem conhecidos por mim. Eu os freqüentava contigo desde pequenino e gostava da possibilidade de ganhar um doce, tomar um guaraná enquanto o senhor conversava e tomava uma cerveja. Era legal colecionar aqueles indiozinhos que vinham naqueles doces de banana açucarados. Eu tinha vários deles. Era legal também ganhar uma maria-mole com bexiga ou mesmo uma paçoca, um doce de leite... Eu sempre gostei de doce.

Às vezes eu ficava brincado com as bolhas na mesa de bilhar. Nem conseguia pegar o taco corretamente e, por mais que perguntasse, não entedia nunca pra que servia aquele giz azul ou porque a bola de número 15 só entrava na mesa quase no final do jogo. Porque todas as bolas podiam brincar e ela só entrava no final?

Ainda lembro... Ainda me lembro dos dias em que saímos a e chuva nos pegava no caminho. Se fosse necessário passávamos o dia todo fora de casa. Em algum momento nesses passeios, chegávamos à casa da vovó. E eu gostava de passar lá. Sempre fui o primo mais velho, nunca brinquei muito com os outros, mas gostava muito de ficar no meio dos meus tios. Gostava de brincar com o Marquinho, com o Cláudio e escutar as histórias do Zicão, do Paulo, do Chapéu e do vovô, além de tentar entender o que o meu tio Tonho dizia. Eu era muito criança, mas adorava estar no meio deles.

Meus domingos ao seu lado eram assim. Lembro-me como se fosse hoje. Lembro-me como se estivesse esperando seu chamado para sentar na garupa da bicicleta. Bons tempos. Quantas saudades de ti pai.

Hoje faz dois anos e eu ainda sinto saudade daquilo que não foi. Rezo sempre por ti. Um beijo.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Minhas sinceras desculpas


Minhas sinceras desculpas por ter sido tão infantil ao ponto de te usar como um simples objeto. Minhas sinceras desculpas por não ter enxergado o quão diferente e colorida era você no meio de todos aqueles tons de cinza. Minhas sinceras desculpas por entrar no seu mundo pela porta da frente, tomar de assalto toda a sua vida, mirar o horizonte e sonhar alto e, depois, sair pela porta dos fundos como um animal arredio.

Minhas sinceras desculpas pelo fracasso que se tornou nossa tentativa inexata em se fazer sermos dois. Minhas sinceras desculpas por aquela cena nonsense, quase surreal, de esmagamento daquilo que ainda nem tínhamos. Minhas sinceras desculpas por ser fraco, seco e distante.

Lembra aquele dia em que encontrei o seu mundo? Aquele passeio na praça deserta, o som quase de inaudível daquela noite calma, tranqüila. Lembra da hora em que te deixei em casa? Lembra da loucura, dos beijos, das palavras, dos olhares? Lembra?

Então... Eu esqueci. Esqueci que aquilo poderia ser verdadeiro. Esqueci de tentar entender tudo aquilo que se passava em minha vida. Não entendi. E não entendendo processei tudo errado. E nesse processo, você que mal tinha entrado, teve que sair. Ou melhor, eu saí. Saí de arrombo, numa só empreitada. Saí correndo, sem olhar pra trás.

É... Demorou... Mas eu olhei pra trás. Primeiro olhei de relance. Primeiro olhei sorrateiramente como quem sabe que olha com vergonha. Vergonha. Só isso. Mas mesmo nesse olhar meio que de lado eu percebi. Percebi que tudo havia se esvaído, tão rápido quanto a minha partida. Tão rápido quanto o meu raciocínio em perceber que meus atos não haviam sido corretos. Não demorou e sua vida já era outra.

Sua vida já era outra completamente diferente. E a minha, a mesma. Os mesmos problemas, a mesmice de sempre e a certeza da insatisfação. Apenas uma constatação mais aprofundada: eu tinha o pseudo-domínio, a falsa posse e eu sabia disso. Mas, na minha pequenez, era isso que me fundava naquele chão. Quão pequeno e mesquinho eu fui.

Minhas sinceras desculpas. Desculpas que talvez não lhe façam sentido. Desculpas que talvez nem lhe lembrem esse algo que existiu. Desculpas que talvez ficaram num tempo tão distante que não tenham mais razão de serem pedidas. Desculpas erradas no momento certo ou certas no momento errado.

Vem-me à cabeça aquele pequeno cachorro daquele filme besta do “Máskara”. Não sei por quê. A lembrança é tão lacônica quanto o pedido de desculpas. Sei lá. Mas, mais uma vez: Minhas sinceras desculpas.

Anderson Mendes Fachina

sábado, 17 de novembro de 2012

Ele tinha tudo... Mas não tinha nada


Ele tinha tudo para estar feliz, mas não estava. Aliás, esse tudo, era na visão dos outros. Ninguém sabe realmente o que ele passava, a não ser ele. Por fora, o que se via era um cara contente, família, com um emprego estável, muito bem encaminhado na vida. E isso, sempre deu a falsa ideia de que sua vida era muito boa, pois assim sendo, não teria do que reclamar.

Mas ele carregava algumas coisas que não lhe deixavam dormir. Aquele “mesmo sonho” não lhe deixava em paz, assim como sua vida. Nada lhe deixava em paz. Sua mente trabalhava incessantemente. Entre um sorriso e outro, as decepções se acentuavam em sua mente e nada lhe parecia estar correto. O sol que brilhava lá fora estava longe de aquecer seu coração. A chuva que caia insistentemente estava longe de lavar sua alma.

Sua vida estava ruindo. Mas, infelizmente, aos outros esses avisos não eram perceptíveis. Ele tinha tudo para ser feliz, lembra? Então estava defronte um problema muito sério. Enquanto suas estruturas estavam corroídas e prestes a cair, sua face cotinha nuances sabores mil, contratando e ajudando ainda mais aquela equação desesperadora.

Outro dia, ao se deitar, ele puxou pra perto de seu peito toda a beleza que o acompanhava. Seus cabelos cheiravam a caramelo, aquele mesmo que lhe fazia lambuzar quando criança. Sua face, seu corpo, tudo era lindo e estava ali, em seus braços. Passava as mãos por entre os cabelos como quem estivesse sonhando acordado. E estava. Sonhava que a vida poderia ser diferente, que este belo poderia realmente ser parte de seu braço, de seu corpo. Mas, como sempre, esta beleza que estava perto levantou-se e saiu, repetindo o gesto dos corações que já não se encontravam mais.

Ele não tinha mais o brilho de outrora, de quando acreditava na vida, nas pessoas. E o engraçado é que tudo já foi começando meio errado e ele viu, achou que dava, as coisas foram caminhando e ficando mais erradas ainda e ele contemporizando... Até que ficou. Ficou como estão hoje, nesse balançar dúbio que tem numa ponta da gangorra a vida que as pessoas acham que ele tinha e na outra a vida que ele realmente tinha.  E seu sofrimento tem aumentado tamanhamente que parece estar prestes a corroer as estruturas que ainda lhe restam. Estava em perigo!

O que ele pensava sobre sua vida eram coisas muito depressivas. Pensava que não tinha nenhuma funcionalidade na instituição que ele próprio ordenava. A instituição de sua vida. A instituição das coisas que a gente vê como primordiais. E por mais que se esforçasse para ser diferente dos demais, por mais que se esforçasse para mostrar que as coisas poderiam ser mais simples, por mais que se esforçasse... Suas forças eram em vão. E o empurravam ainda mais para o abismo que ele guardava dentro de si. “Estou a dois passos, do paraíso”, cantava. “E a meio passo do precipício”, pensava. O sonho desta noite havia sido duro demais. Realmente ele precisava voltar à cadeira daquela pessoa que lhe havia aberto mais a mente outrora. E ele vai voltar. Já estava marcado.

Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Eu quero minha sanidade de volta


Ele sempre foi um cara complicado. Não que ele desejasse isso, mas as circunstâncias nunca o deixavam respirar livremente, pensar somente em si e nos seus sonhos. Ele sempre carregou uma bagagem muito maior do que precisava para viver. Apesar de todo essa complicação, algo sempre o colocava em destaque. Era uma pessoa divertida, amável, que sempre arrancava sorrisos e que fazia amigos com facilidade. Porém a vida nunca lhe sorria com o mesmo vigor que os outros.

Mas isso nunca foi um problema para que ele seguisse com sua vida. Aos trancos e barrancos, sempre conseguia seus intentos. Sempre pensava que um dia as coisas haviam de melhorar.

Certa feita, uma experiência traumática lhe tirou o chão. Perdeu amigos, se afastou de várias pessoas, viu sua vida ruir e muitas das coisas que havia construído no campo ideológico/ social/ religioso foram tidas como nulas. O episódio em questão e todos os seus reflexos fizeram com que muita gente esquecesse o que ele havia feito de bom. O que ele havia reerguido foi meio que tomado por outros. E ele caiu.

Caiu como já havia caído outras vezes. E se reergueu. Assim como havia se reerguido outras vezes. Mas como dizem os antigos “besteira pouca é bobagem”. E então ela apareceu.

Ela apareceu quase que do nada. Até dias antes, ignorava a existência dela. Ela apareceu lhe tirando toda e qualquer possibilidade de reação contrária. Um amor arrebatador, diriam alguns. A metade da laranja, diriam outros. E o céu, pelo menos o seu céu, se abriu em resplendor. E a vida ganhou ares de romantismo, lirismo, realismo. Real porque nunca havia vivido daquela maneira e para ele era assim mesmo que deveria ser a vida: alegre, festiva, amorosa...

Esqueceu-se de vários problemas. Via os sonhos tomando novas roupagens. Esqueceu-se da dor de carregar um fardo que não era somente seu. Enfim, a fotografia de sua vida estava mais colorida, mais compassada, muito mais agradável.

Ela não era uma mulher fatal, mas estava perto. O trouxe para o seu mundo e arrebatou seu coração como quem agarra com ambas as mãos um prato de comida após dias e dias de jejum. E ele foi agarrado... Física e psicologicamente. Ai nasceu o erro da relação.

O encanto vivido escondia ainda mais algumas nuances não tão superficiais. O mundo dela era diferente do dele. E uma vez passado o perfume que faz de todo e qualquer amante um príncipe/ princesa, o castelo mental até então construído em bases sólidas começou a ruir.

Ela era inconstante. Queria, não queria. Tinha orgulho, tinha vergonha. Era amorosa, era ríspida. Nada fazia sentido em suas atitudes. Não que estas não se justificassem. Não faziam sentido porque não tinham uma linha racional que lhes conduzisse. Ele, ao contrário, buscava sentido para tudo o que estava acontecendo e, ao mesmo tempo em que sentia e oferecia um amor verdadeiro, começava a ver que seus sonhos, mais uma vez, poderiam não ter um final feliz.

E ela o esgotou. Esgotou toda sua capacidade mental em raciocinar com primor. Ele agora não tem chão em seus pensamentos. Não sabe mais o que quer, não sabe para onde isso tudo vai se encaminhar. Não consegue mais sorrir verdadeiramente.

Essa nova fase o reaproximou de alguns velhos amigos. Amigos verdadeiros que as vezes lhe servem de parada. Mas nem mesmo esses amigos conseguem mensurar até que ponto as coisas se processam em sua mente... E principalmente como se processam esses pensamentos. Eles percebem que ele não tem mais paz. Suas forças se mostram muito pequenas, dentro daqueles olhos fundos, cansados.

Sua sanidade está em risco. A linha tênue entre a felicidade e a loucura está sendo ultrapassada. Ele estava quieto, em seu canto. Não havia pedido isso. Ela apareceu por uma conjectura mal feita do universo. Triste. Espero que o pouco que lhe resta seja capaz de fazer vê-lo que isso não é amor.


Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Reflexos da inocência ou do tudo é permitido, mas nada obrigatório 2


O lugar era o mesmo, as companhias não. Aliás, as companhias eram extremamente diferentes, se isso é possível. Mas o lugar, este, certeza, era exatamente o mesmo. Aliás, nada mudara muito da última vez que visitou aquele local. O mesmo ar, a mesma penumbra, o mesmo errare humanum est de sempre.

Quando pôs os pés no interior do local teve a mesma certeza de outrora. A mesma sensação o tomou todo o ser. O tempo era outro, mas a sensação era a mesma, a mesma. Recordações o assolaram naquela fração de segundos entre o primeiro passo e o próximo. Olhou ao redor e viu o que tinha quer ver. Surreal? Fantasioso? Não! Apenas acontecia o que era previsto, as cenas passavam pelos seus olhos como em câmera lenta, porém muito vivas e marcantes. Muito marcantes. Muito vivas. Como se não bastasse a intensidade dos flashes, como se não bastassem as imagens prêt-à-porter que estalavam ao tocar a face, como se não bastasse o flashback nonsense, como se não bastasse tudo aquilo de novo, ele viu. Ele viu por entre as frestas, por entre as passagens.

Ele viu. Não sabe ao certo traduzir a imagem. Não consegue definir o que os olhos viam. Mas tinha uma certeza, ele viu. Viu com a claridade do sol que ali nunca habita. Ele viu.

E numa fração de segundos ele... Viu. Foi só isso. Lembrou-se da inocência perdida, da flecha atirada, das palavras jogadas, lembrou-se de tudo. Tudo tem uma explicação, pensou. Tudo tem um por que. E é aí que nem sempre tudo é o que parece.

Olhou para outro lado. Desta vez com mais profundidade, para não correr o risco de se perder mais uma vez por entre as frestas. E acredite, alguma coisa aconteceu de certo, ou de errado (dependendo do lado em que se está). Alguma coisa dessas que fogem ao controle. Fogem ao controle.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Se você quer sorrir


Quando não se tem a reciprocidade merecida, algo errado está acontecendo. Mas ela não consegue enxergar isso de maneira nenhuma. Tem um brilho no olhar que lhe é singular, tem um doce e um encanto no rosto. Mas não se engane: Tem a sutileza sarcástica do bom humor. E isso, diga-se de passagem, é de longe a melhor característica.

Acontece que parece que ela não sabe disso e vive um sonho onde apenas seus anseios o alimentam. Um sonho que corriqueiramente se torna um pesadelo. E como sempre ela acorda assustada, entende o que estava acontecendo, jura que não vai sonhar mais... Mas, quando volta a adormecer, o sonho volta com toda a força.

E não é que esse sonho a traz vergonha. Ela envergonha-se em saber que está sonhando sozinha novamente. Tem medo de falar seus sentimentos, tem medo de contar aos demais suas aspirações. Bom, então, meio caminho andado para a derrocada final do ser amoroso. Só falta um ponto a ser resolvido. Só falta um ponto, o ponto final.

Outro dia ela escutou: Essa história não tem final feliz, nessa história você nunca vai viver em harmonia. Se quiser voltar a sorrir, tem que acabar com essa história e começar outra. Fato! Mesmo que seja com a mesma pessoa, mas essa história é fadada ao fracasso. Outra deve ser construída, outra deve ser trilhada.

Não se fala mais nisso. Se ela está sonhando sozinha ainda é um mistério. Mas uma coisa é certa: Se estiver sonhando a mesma história em breve todos saberão. Basta olhar para seus olhos marejados e a feição de tristeza que assola os amantes abandonados.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Decepção


Hoje eu tive a certeza de que pensar ao contrário, quando se está decepcionado, é algo extremamente difícil. Aliás, a decepção chega rompante, montada num cavalo branco num cavalgar avassalador. Tira-te o chão, o ar, os pensamentos bons, tira-te o norte, o sul, o leste e o oeste.

Há tempos não me sentia assim (salvo as decepções sobre minhas ações e atitudes, que são quase que instantâneas quando faço algo errado). Há tempos eu não ficava tão fora de mim, deixando os sonhos em segundo plano. Em segundo plano não, enterrando os sonhos sob uma camada grosseira de pedras a assentos. Nem o brilho juvenil do horizonte que me cerca conseguiu mudar o panorama da frustração da minha mente.

Fiquei extremamente decepcionado. Fui do céu ao chão em questão de milésimos de segundos. Cai de cara. E minha face ainda está enterrada no lugar em que despencou. Uma certeza se fez presente. Acreditar é antes de tudo uma questão de fé. Fé em algo que julgamos importante. Mas a certeza que se fez presente não foi essa. A certeza é de que quando baseamos esse acreditar naquilo que não é entendido, vemos que o não entendido é na verdade, não verdadeiro.

Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O mesmo sonho

Este sonho tem se tornado corriqueiro. Não é bom. Não é um sonho que se deseje ter. Nele eu vejo cenas que nunca deveriam fazer parte da minha vida e sempre acordo em aflição, em total medo. Não que eu quisesse parar de sonhar. Mas ultimamente meus sonhos não são bons. Não estão sendo sonhos. Pesadelos? Não sei.

Neste sonho eu vejo uma pessoa muito próxima. Ela não me reconhece como tal e mostra o quão sua vida é superior, mesmo sem a minha presença. Mesmo sem a história que nos une. E pior, não há passado, não há sequer história, apesar desta se passar em razão de segundos em minha mente.

Nesta não-história, sou feliz. Nessa não-história tenho a vida que pretendia ter. Mas uma ressalva deve ser feita: quem desconstrói essa não-história sou eu mesmo. Sou eu quem a escreve por entre as linhas paralelas deste caderno que é a vida.

Então no sonho vejo o infinito sem luz. Vejo a luz sem interruptor. Vejo o interruptor, mas minha mão não o alcança. Aliás, não tenho forças para nada a não ser chorar. Um choro resquicioso, um choro que mostra a minha fragilidade diante da avassaladora passagem da borracha que reescreve o futuro.

Às vezes penso: Quem comanda a borracha? Quem posiciona o lápis? Quem vê por entre as linhas traçadas e encontra as brechas da felicidade e da solidão? Mas isso não importa durante o sonho. O que importa é que sofro e vejo isso com meus olhos lacrimejados. Nesta turves que me embala o ser, encontro um propósito muito forte. Sou impelido a acreditar que se trata de um sonho. 

No soluço da verdade, só tenho uma certeza: vou voltar a dormir, vou voltar a sonhar.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 8 de abril de 2012

Ele está morrendo

Por todos os ângulos que eu olho, vejo a mesma coisa: ele está morrendo. Não que ele estivesse em plena vivência, gastando saúde ou mesmo com fôlego para dar algumas caminhadas, mas está morrendo. Está morrendo porque não consegue mais. Está morrendo porque não encontra parâmetros do outro lado. Está morrendo porque a morte pode ser a sua salvação. Está morrendo porque a morte pode significar uma nova vida em outro lugar. Um lugar onde sua imaginação tem asas e a vida tem algum sentido.

Durante muito tempo ele acreditou neste teatro. No fundo ainda acredita. Mas sabe que quando o roteiro é escrito por um autor intransigente, que evoca todas suas perspectivas de vida para falar que é o dono da verdade, que conhece a arte como ninguém, não adianta tentar ser espontâneo, não adianta tentar querer mostrar que tem também um bom lado artístico. Tem que seguir o roteiro e ponto.

Outro dia tentou comemorar um ano de bons e maus momentos, mesmo porque acredita que essa vida deve ser celebrada. Mesmo porque acredita que os passos estão sendo dados, e ele ainda está aberto. Mas essa comemoração ficou para trás. Foi vencido pelo cansaço da falta de imaterialidade do outro. Foi vencido pela falta de sonho do outro. Foi vencido pela vida onde ele não habita, não faz parte. Uma vida onde ele tem apenas uma função: ajudar. Não faz parte dela, não foi considerado em sua construção... Mas é cobrado a ajudar, é cobrado com afinco, sob pena de ser excluído dos demais processos, como o é sistematicamente.

Ele está morrendo, apesar da vida belíssima e pequenina que tens em mãos. Uma vida que lhe encanta a todo o momento. Uma vida que deveria ser celebrada, mas não é. Pena, talvez seja a única vida que realmente importa, já que a sua não existe.

Ele está morrendo... Mas a morte é dolorosa e implacável. Seu processo é penoso demais às vezes. Ele está morrendo... Mas ao mesmo tempo ainda tenta entender o que está acontecendo para poder continuar a pensar: já que a morte é dolorosa demais, talvez só lhe reste uma saída.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 4 de março de 2012

Quatro reais... Foi o que sobrou

Ela estava totalmente frágil e procurava um sentido para sua vida amorosa. Mas o caminho estava errado e eu sabia disso desde o primeiro momento. Não podia ser diferente, a rol de clichês estava sendo usado à exaustão... E isso, ela nunca vai poder dizer que não foi dito. Eu alertei, e como alertei. Pense: princesa e anjo sem asas não podem ser elogios realmente verdadeiros para um primeiro encontro, ou décimo que seja. Aliás, nada mais démodé, certo?

Bom, mas acontece o seguinte: aconteceu. Ela ficou toda derretida e ele, ao chegar em casa, fez mais um risco na parede.

Numa situação destas, as coisas em ambos os lados se processam de maneira muito diferente. Para ele, um troféu, mais uma conquista (e a renovação das mentiras contadas). Para ela, um momento especial, inesquecível, a celebração da vida.

Mas a mentira estava traçada perfeitamente. Ele estava em apenas uma pequena passagem pela cidade e omitiu isso a todos. Num belo dia, entre juras de amor e saudades, ele disse que iria para São Paulo ver a mãe e retornaria no domingo. Chegou o domingo e ele não deu notícias. Setenta e oito ligações perdidas depois ela descobriu: ele havia ido embora para outra cidade, outro serviço e ainda era casado. O anjo sem asas caiu no choro. A princesa perdeu o seu sapatinho de cristal.

"Quatro reais, foi o que sobrou”, disse ela. Quatro reais em créditos de celular que ele havia bancado para que eles se comunicassem. Um investimento que lhe valeu uma boa conquista. Uma sobra que valeu a ela nada. E mais uma desiludida do amor povoa a terra...

Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Eu desisti de mim hoje

Hoje tirei férias do meu EU. Hoje olhei no espelho na intenção de não me ver. Hoje eu cheguei em casa e não reconheci meu canto. Hoje eu sequer cantei. Hoje eu olhei pra dentro de mim e só encontrei desgostos. Só encontrei o amontoado de carapaças que compõem meu ser. E olha que são muitas. Muitas e muitas mais.
Hoje, o rosto retalhado que dá vida a meu corpo encontrou parada em seu viver. Hoje a parada foi a tônica, foi a vida não vivida, foi o amargo regresso daquele que nunca foi.
Hoje... Espero que este dia acabe...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Incongruências

Ontem andei por uma estrada sem caminhos
E num destes, vi uma luz que não existia
E na não existência conheci quem eu já conhecia
Na madrugada do meio-dia

Ontem eu vivi uma vida que ainda não nasceu
Mas que tinha um rosto tão lindo quanto a morte
E morrendo em seus braços caí num poço
Onde a água era densa como a sorte

Ontem eu tive a oportunidade de não ter nada
E não tendo, chorei pelo muito
As lágrimas pareciam areia numa ampulheta furada
Onde o tempo passava sem ser marcado

Ontem eu olhei essa marca a uma distância secular
E no segundo do terceiro
Percebi que o receio era tão grande
Pura falta de sorte daquele que chega em primeiro

Ontem eu percebi que era tímido
Incomunicavelmente sozinho na multidão
E nessa timidez juvenil
Senti-me um rebelde sem causa

Ontem a causa era justa
Tão ou mais que o seu julgamento
Que me leva ao fundo em um segundo
Mas que por um instante não lamento.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cavalo de cabo de vassoura - parte 2


Era apenas um cavalo de cabo de vassoura e estava definhando. Estava definhando tão rápido que o próprio não se dera conta do tamanho do estrago. O reino pelo qual ele caminhava com tanto entusiasmo não lhe pertencia, pois ele era apenas um cavalo de cabo de vassoura. Cavalos de cabo de vassoura não possuem reinos, no máximo, vivem neles, fazem parte do folclore local, mas em suma, não são donos, nem mesmo em parceria com outrem. Cavalos de cabo de vassoura sequer possuem baías ou estábulos, cochos ou selas. Não possuem nada.

E a rapidez com que as coisas lhe tomavam de assalto, a mesma rapidez que provocava a ilusão da luz cinza no fim do túnel, foi a mesma que o ajudou a definhar sem perceber. Essa rapidez o ajudou no processo do encontro e também no da despedida. Mas e agora? Por ser apenas um cavalo de cabo de vassoura o que lhe restaria? Seu mundo estava ruindo assim como seu próprio ser, sua essência. Era apenas um cavalo de cabo de vassoura.

Era apenas um cavalo de cabo de vassoura, e cavalos de cabo de vassoura não são mágicos. Não me lembro de sequer um desenho ou conto no qual um destes fazia alguma magia, fazia algum encantamento ou lançava não de alguma poção, varinha de condão ou mesmo um truque de circo. Cavalos de cabo de vassoura não são mágicos. E, se naturalmente a magia ali faltava e não lhe dava perspectivas de melhora, algo de muito ruim estaria por vir... E o tempo passou...

O tempo que para ele não existia passou. Mas como uma coisa que não existe passa? Como pensar que o senhor das horas e guardião do passado, presente e futuro, que para ele nada representava, pois era apenas um cavalo de cabo de vassoura, poderia agora lhe fazer alguma diferença? Como?

Parafraseando um gênio, os loucos, aqueles que são loucos o bastante para acharem que são capazes de mudar o mundo (e realmente são os que mudam), têm uma característica em comum: são atemporais, não se preocupam com o tempo, não se preocupam com os problemas, apenas vivem... E vivem intensamente. O passar do tempo que não existe, a loucura da irrealidade do status quo e a condição de uma existência efêmera causaram nele, o cavalo, um instante infinitamente pequeno de genialidade. Uma genialidade infinitesimal!

Certa feita, ainda no reino da Torre, quando se deitara em seus panos (cavalo de cabo de vassoura não tem baia) teve a permissão de se sentir plenamente num êxtase tão claro quanto o dia, e nesse profundo suspiro de resiliência, onde não se tem a noção exata do que é palpável e do que é etéreo, ele viu uma criança. Uma criança a qual ele conhecera naquele momento, mas de uma intimidade milenar (para cavalos de cabo de vassoura o tempo não existe). Muito antes de existir de fato, ela estava ali, de pé por entre as grades de um portão. 

Continua...

A continuação deste texto será lançada na próxima semana. Quem quiser acompanhar a primeira parte do conto acesse: http://caosfilosofico.blogspot.com/2011/04/cavalo-de-cabo-de-vassoura.html

Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A escolha correta


Ele estava sem muito amor próprio. Vivia sob a égide do referencial de beleza da sociedade, como não era do padrão tido como ideal, vivia uma vida vaga, sempre com vistas a sua condição corporal. “Não sou bonito, ninguém me quer, todo mundo me acha legal e ponto”, eram suas lamentações diárias. Prometeu mudar de vida, não pela saúde, mas pela estética e por todo o peso que carregava nas costas.

Nesse meio tempo conheceu alguém. Alguém que aprendeu a gostar dele pelo que ele era, não pelo seu corpo. Alguém que lhe deu amor, força, incentivo, carinho. O acompanhou durante todo o processo e reconquista da auto-estima e mostrou a ele caminhos nunca dantes percorridos. Ele enfim, havia encontrado alguém que o queria bem, que o queria de verdade. Que um dia planejou viver com ele.

E todo o processo foi doloroso, passaria por uma cirurgia relativamente nova mas que vinha apresentando bons resultados. Resultado: ele ficou de bem com seu novo corpo. Muito sacrifício foi preciso e ele batalhou com unhas e dentes. Mereceu. Agora, todos o olharam diferentemente. O espelho o refletiu diferente. Não precisava mais de essência, isso já não era mais o seu ponto primordial. Une-se isso ao fato de sua vida profissional também dar uma guinada e pronto: um novo homem nasceu.

Ou melhor, um novo homem se mostrou. A vida para ele passou a ser diferente, nova, com algumas descobertas, novas sensações, novos caminhos. E bastou um tempo de tudo novo para perceber que tudo o velho já não lhe satisfazia, como nunca havia satisfeito mesmo, exceção a presença dela. Ela, que havia lhe amado antes, antes da transformação. Ela, que conhecia sua essência.

Pouco tempo se passou até que ele proferiu a máxima: “Não estou pronto, tenho muita coisa a viver ainda, preciso passar por isso”. E o suposto amor deu espaço a outros sentimentos. E ela foi ficando de lado, ficando de lado, até que tudo terminou.

Sua essência já não faz mais diferença, o que conta é o que o espelho lhe mostra. É o que os outros lhe dizem. É o que a “sociedade” lhe taxa. Ponto. Muita água ainda vai rolar até que se saiba se ele fez a escolha correta.

Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 26 de abril de 2011

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Feliz é a inocente vestal!
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança
Alexander Pope

Ele descobre que ela o apagou da memória. Num impulso de raiva e desespero ele procura o mesmo. Durante o processo, enquanto sua memória é vasculhada para o apagamento, ele se dá conta de que ainda a ama. Mas o processo mental está em curso. Ele esta desacordado com a cabeça cheia de aparelhos e fios. Sua mente trabalha no sentido de brecar o processo. Ele tenta, tem sucesso relativo. Mas o processo é irreversível. As lembranças dela estão sendo sumariamente apagadas. É o fim.

Este é o enredo de um dos filmes que está no meu Top 100: “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Ontem, pela indicação de uma amiga, li um texto que citava o filme e me lembrei que havia escrito sobre ele (havia o usado como pano de fundo). É realmente um filme cativante, que sabe captar a alma de um relacionamento confuso, um encontro inesperado e uma história de amor. Além do que as interpretações de Jim Carrey (saindo daquele humor piegas), Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood e Tom Wilkinson são, sem dúvida, uma das melhores de suas vidas. Peguei este arquivo, à tarde assisti novamente ao filme e trabalhei mais uma vez o texto. Precisava escrever. Precisava pensar em algo. Precisava ocupar meu coração com algo. Espero que todos gostem:

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Ele corre pela areia. A vê a distância. Sua visão é a chama para a rapidez que opera neste momento. Não há falta de ar, não há suor e não há cansaço que o faça parar de correr neste momento. Run, Lola, Run. Mas corre e a imagem se afasta. Corre mais. Corre como nunca. Quando enfim se aproxima, ela desaparece. Sua imagem se foi, desintegrou-se no espaço.

Ele fica desapontado. Olha para o horizonte sem entender o que está acontecendo. A história de sua vida estava ali, mas lhe escapou por entre os dedos. Ele senta na areia e chora. Chora. E a cada lágrima uma passagem lhe vem à mente. Sua mente está conturbada, confusa. Ele não sabe mais o que pensar. Vê tudo aquilo com uma maravilhosidade ímpar, ao mesmo tempo em que tudo passa num frenesi tão incontrolável que o entorpece. Ele está entorpecido olhando para o mar, olhando para as ondas, olhando para dentro de si.

A pergunta que sempre lhe ronda a mente vem á tona: onde foi que eu errei? Onde? Ele a amava. Ela sabia disso. Ela o amava. Ele sabia disto. Num rompante de embriaguês mental ele fecha os olhos. Ao abrir, não está mais frente ao mar. Esta em casa, na sua cama. Olha para o teto, o ventilador funciona em câmera lenta. Então ele olha do lado e a vê, ali, dormindo profundamente. Tenta acordá-la. Ele não responde aos seus estímulos. Ele olha para o espelho na parede e não vê o seu reflexo. Somente ela, ali, dormindo profundamente. Levanta-se nervosamente. Está sem seu pijama favorito. Ele olha novamente e vê que não está mais em casa. Não está no quarto dela. Tudo é estranho, tudo é novo e assustador. Entra em pânico. Grita em direção aquele corpo imóvel. O corpo se mexe, sem sucesso. Nada é mais como era antes.


Numa fração de segundos, lembra do início deste processo doloroso. Ela queria esquecê-lo, tirá-lo de vez da sua vida. Por qual motivo mesmo? Para ele aquilo ainda não estava claro. Muita água havia passado por debaixo da ponte sem que ele percebesse. Sua mente agora lhe fala: “É isso, se ela não te quer, não há motivos para querê-la”. Houve-se um estalo ensurdecedor. Mais uma vez ele olha para o espelho. Agora se enxerga. Está ali, feio, forte e formal. Sua face está irreconhecível, mas é ele. Seu coração está machucado, mas é ele. Suas roupas já não são as mesmas, mas é ele. Sua alma foi corrompida, mas é ele. Havia feito coisas que não queria, mas, sem dúvida era ele. Ele sorri, nervosamente. Ele sorri amarelo.

Ela enfim parece acordar. Ele se assusta. Estava tomado por si mesmo. Lembra também o porquê daquilo tudo: A amava. Ela abre sorrateiramente os olhos. Ele, também sorrateiramente sai de seu campo de visão e a olha a distância. Ainda meio sonolenta ela diz: “amor, você está aí?”. Ele não responde. Ele emudece. Ela se vira do lado e parece voltar a dormir. Ele se desespera: “o que estou fazendo?”. Mais uma vez se aproxima. A toca e neste momento, mais uma vez ela some. Ele olha ao redor. Está sentado em sua sala vendo TV. Está sentado. Teve sua oportunidade e não aproveitou. Não aproveitou.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 24 de abril de 2011

Cinco minutos depois de...

Primeiramente gostaria de deixar minhas sinceras desculpas. Justificativa: Se eu não fizesse isso, não seria eu. Faço não por que quero que penses alguma coisa. Faço sem intenção de despertar alguma coisa ou mesmo fazer uma surpresa. Faço porque sigo um velho conselho de minha mãe, que me foi dado quando ela foi chamada a comparecer à escola pela primeira vez, eu tinha 7 anos. Lembra daquelas balas que vinham grudadinhas, numa tira? Só quem tem mais de 30 sabe do que estou falando. Ah, então. No meio da aula eu subi na carteira e rodei uma daquelas tirinhas no ar dizendo: “quem quer bala?”. Claro que a professora me pôs de castigo e mandou chamar a minha mãe. Na sala da diretoria, aquele dia, minha mãe disse uma coisa que marcou a minha vida. Ela não estava brava com a minha atitude, somente disse que não poderia fazer isso na aula. E, ao pé do ouvido me disse, contrariando a recomendação que acabara de dar: “Filho, sempre faça o que o seu coração mandar”. E não poderia ser diferente.

Meu coração pediu para que eu fizesse isso e, sem muitas perguntas resolvi atendê-lo. Nestes dias tenho o contrariado tanto... Ainda não me arrependi, mas isso é iminente, assim como dois e dois são quatro.

Nunca sua frase “nossa história só tem coisa bonita” fez tanto sentido assim. Nestes dias eu me esforcei em olhar de fora. Assim sendo, comecei a entender tanta coisa. Era como se tivesse feito o download de toda nossa história em segundos. Entendi minha “missão” e visualizei a sua. Tudo tão claro, tão limpo, tão palpável. O que tiver que ser, será... Agora entendo e sigo em frente. Sem renunciar a nada, sem esperar por nada, apenas sigo olhando pra mim.

Lembro de todas as frases pra mim dirigidas. Lembro de todas as frases por mim dirigidas. Lembro-me de todas as passagens, todos os momentos, todos os suspiros, todos os carinhos, todos os beijos, todos os olhares, todos os pqps, lembro-me de tudo, mas de tudo mesmo. Aliás, como digo, não há como lembrar aquilo que ainda não esqueci, que não me saiu da mente. É tudo tão vivo. Tudo tão colorido. Só coisa boa, tens razão.

Tudo o que te disse até hoje é verdade. Tudo mesmo. Não retiro nada, nem um hominho. Aliás, eu agora os cultivo como ouro em essência. E como não poderia deixar de ser diferente, como num passe de mágica, em tantos lugares para eu parar neste reino tão vasto, escolhi justamente a sombra pela qual a Torre se deslocava. Além da coincidência do local, há também a do horário, do momento em que resolvi enviar meu sinal, do momento em que resolvi olhar para baixo. São tantas. Enquanto mandava meu sinal de fumaça e enquanto este era recebido, vi, alí, a menos de 20 metros, toda a beleza inundando a rua. Coisa do destino? Sei lá.

Enquanto me deslocava vinha pensando sobre tudo. Tudo passa como num filme pela minha mente. Adoro filmes. E melhor ainda quando se tem a sensação de que estou dentro dele, que faço parte de uma série de acontecimentos que, ao final, faziam parte de uma trama muito, mas muito fantástica. Tudo muito ritmado, tudo muito entrelaçado, tudo muito bem costurado. Não a lá Tarantino, não a lá Scorcese... Apenas uma história de vida, uma história que muito bem poderia não ter acontecido, mas que se fez presente e encheu aqueles que dela participaram de orgulho. Orgulho de compartilhar uma época e uma existência. Orgulho de ter feito aquilo que quis, quando quis, como quis e ainda maravilhosamente bem. Essa é minha sensação. Sensação de ter feito tudo o que eu podia ter feito. Claro que não fiz, mas fico sempre na expectativa de ter feito o melhor, o que estava e o que não estava ao meu alcance.

Hoje a história não é contada na terceira pessoa "ele". Hoje a história é narrada em primeira pessoa. Primeira por que o narrador desceu (ou subiu) ao palco. Entrou em cena, mostrou sua cara, abriu seu coração. Agora a platéia sabe quem é ele. Sabe quem agora ocupa o lugar de destaque (ou não) no filme. Uma emoção com rosto, um sentimento com sorriso verdadeiro, uma voz com presença ativa.

A história segue, como deve seguir, como deve ser, como deve acontecer. "Seu investimento sem maiores pretensões foi a sua maior conquista". "Pensa num cara que te deseja". "Pensa num Snoopy feliz". "Deus abençoe as...". "Agora sim eu vi vantagem". "Essa é a hora em que eu me dou bem". "Ah, você aqui na sorveteria, quanta coincidência”. “Feche a janela”. “Chega aqui, deixa eu te mostrar uma coisa na geladeira”. “O que faz metade de mim neste momento”. “Cavalo de Cabo de Vassoura, sua Torre está em perigo”. “Sabe quando rimos por algo deliciosamente levado que pensamos ou dizemos?”. “Por mais que eu pense, não consigo achar coisa melhor pra ter me acontecido que você”. São tantas, mas tantas as frases e passagens que compõem esse roteiro. Como dizia a música: “Tanto clichê, deve não ser”. Clichê que nada, tudo foi o que deveria ter sido. Tudo foi o que foi. Sou o que sou, lembra?

Como disse, essa história ainda não acabou. Não que ela continue da mesma forma, não que ele continue de outra forma, não que ela continue. Já nem sei mais o que estou dizendo. Já nem sei mais o que... Como diria meu mentor intelectual Sócrates, “Só sei que nada sei”. Só sei que foi assim!

Anderson Mendes Fachina