sábado, 17 de novembro de 2012

Ele tinha tudo... Mas não tinha nada


Ele tinha tudo para estar feliz, mas não estava. Aliás, esse tudo, era na visão dos outros. Ninguém sabe realmente o que ele passava, a não ser ele. Por fora, o que se via era um cara contente, família, com um emprego estável, muito bem encaminhado na vida. E isso, sempre deu a falsa ideia de que sua vida era muito boa, pois assim sendo, não teria do que reclamar.

Mas ele carregava algumas coisas que não lhe deixavam dormir. Aquele “mesmo sonho” não lhe deixava em paz, assim como sua vida. Nada lhe deixava em paz. Sua mente trabalhava incessantemente. Entre um sorriso e outro, as decepções se acentuavam em sua mente e nada lhe parecia estar correto. O sol que brilhava lá fora estava longe de aquecer seu coração. A chuva que caia insistentemente estava longe de lavar sua alma.

Sua vida estava ruindo. Mas, infelizmente, aos outros esses avisos não eram perceptíveis. Ele tinha tudo para ser feliz, lembra? Então estava defronte um problema muito sério. Enquanto suas estruturas estavam corroídas e prestes a cair, sua face cotinha nuances sabores mil, contratando e ajudando ainda mais aquela equação desesperadora.

Outro dia, ao se deitar, ele puxou pra perto de seu peito toda a beleza que o acompanhava. Seus cabelos cheiravam a caramelo, aquele mesmo que lhe fazia lambuzar quando criança. Sua face, seu corpo, tudo era lindo e estava ali, em seus braços. Passava as mãos por entre os cabelos como quem estivesse sonhando acordado. E estava. Sonhava que a vida poderia ser diferente, que este belo poderia realmente ser parte de seu braço, de seu corpo. Mas, como sempre, esta beleza que estava perto levantou-se e saiu, repetindo o gesto dos corações que já não se encontravam mais.

Ele não tinha mais o brilho de outrora, de quando acreditava na vida, nas pessoas. E o engraçado é que tudo já foi começando meio errado e ele viu, achou que dava, as coisas foram caminhando e ficando mais erradas ainda e ele contemporizando... Até que ficou. Ficou como estão hoje, nesse balançar dúbio que tem numa ponta da gangorra a vida que as pessoas acham que ele tinha e na outra a vida que ele realmente tinha.  E seu sofrimento tem aumentado tamanhamente que parece estar prestes a corroer as estruturas que ainda lhe restam. Estava em perigo!

O que ele pensava sobre sua vida eram coisas muito depressivas. Pensava que não tinha nenhuma funcionalidade na instituição que ele próprio ordenava. A instituição de sua vida. A instituição das coisas que a gente vê como primordiais. E por mais que se esforçasse para ser diferente dos demais, por mais que se esforçasse para mostrar que as coisas poderiam ser mais simples, por mais que se esforçasse... Suas forças eram em vão. E o empurravam ainda mais para o abismo que ele guardava dentro de si. “Estou a dois passos, do paraíso”, cantava. “E a meio passo do precipício”, pensava. O sonho desta noite havia sido duro demais. Realmente ele precisava voltar à cadeira daquela pessoa que lhe havia aberto mais a mente outrora. E ele vai voltar. Já estava marcado.

Anderson Mendes Fachina

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Eu quero minha sanidade de volta


Ele sempre foi um cara complicado. Não que ele desejasse isso, mas as circunstâncias nunca o deixavam respirar livremente, pensar somente em si e nos seus sonhos. Ele sempre carregou uma bagagem muito maior do que precisava para viver. Apesar de todo essa complicação, algo sempre o colocava em destaque. Era uma pessoa divertida, amável, que sempre arrancava sorrisos e que fazia amigos com facilidade. Porém a vida nunca lhe sorria com o mesmo vigor que os outros.

Mas isso nunca foi um problema para que ele seguisse com sua vida. Aos trancos e barrancos, sempre conseguia seus intentos. Sempre pensava que um dia as coisas haviam de melhorar.

Certa feita, uma experiência traumática lhe tirou o chão. Perdeu amigos, se afastou de várias pessoas, viu sua vida ruir e muitas das coisas que havia construído no campo ideológico/ social/ religioso foram tidas como nulas. O episódio em questão e todos os seus reflexos fizeram com que muita gente esquecesse o que ele havia feito de bom. O que ele havia reerguido foi meio que tomado por outros. E ele caiu.

Caiu como já havia caído outras vezes. E se reergueu. Assim como havia se reerguido outras vezes. Mas como dizem os antigos “besteira pouca é bobagem”. E então ela apareceu.

Ela apareceu quase que do nada. Até dias antes, ignorava a existência dela. Ela apareceu lhe tirando toda e qualquer possibilidade de reação contrária. Um amor arrebatador, diriam alguns. A metade da laranja, diriam outros. E o céu, pelo menos o seu céu, se abriu em resplendor. E a vida ganhou ares de romantismo, lirismo, realismo. Real porque nunca havia vivido daquela maneira e para ele era assim mesmo que deveria ser a vida: alegre, festiva, amorosa...

Esqueceu-se de vários problemas. Via os sonhos tomando novas roupagens. Esqueceu-se da dor de carregar um fardo que não era somente seu. Enfim, a fotografia de sua vida estava mais colorida, mais compassada, muito mais agradável.

Ela não era uma mulher fatal, mas estava perto. O trouxe para o seu mundo e arrebatou seu coração como quem agarra com ambas as mãos um prato de comida após dias e dias de jejum. E ele foi agarrado... Física e psicologicamente. Ai nasceu o erro da relação.

O encanto vivido escondia ainda mais algumas nuances não tão superficiais. O mundo dela era diferente do dele. E uma vez passado o perfume que faz de todo e qualquer amante um príncipe/ princesa, o castelo mental até então construído em bases sólidas começou a ruir.

Ela era inconstante. Queria, não queria. Tinha orgulho, tinha vergonha. Era amorosa, era ríspida. Nada fazia sentido em suas atitudes. Não que estas não se justificassem. Não faziam sentido porque não tinham uma linha racional que lhes conduzisse. Ele, ao contrário, buscava sentido para tudo o que estava acontecendo e, ao mesmo tempo em que sentia e oferecia um amor verdadeiro, começava a ver que seus sonhos, mais uma vez, poderiam não ter um final feliz.

E ela o esgotou. Esgotou toda sua capacidade mental em raciocinar com primor. Ele agora não tem chão em seus pensamentos. Não sabe mais o que quer, não sabe para onde isso tudo vai se encaminhar. Não consegue mais sorrir verdadeiramente.

Essa nova fase o reaproximou de alguns velhos amigos. Amigos verdadeiros que as vezes lhe servem de parada. Mas nem mesmo esses amigos conseguem mensurar até que ponto as coisas se processam em sua mente... E principalmente como se processam esses pensamentos. Eles percebem que ele não tem mais paz. Suas forças se mostram muito pequenas, dentro daqueles olhos fundos, cansados.

Sua sanidade está em risco. A linha tênue entre a felicidade e a loucura está sendo ultrapassada. Ele estava quieto, em seu canto. Não havia pedido isso. Ela apareceu por uma conjectura mal feita do universo. Triste. Espero que o pouco que lhe resta seja capaz de fazer vê-lo que isso não é amor.


Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Palmeirenses + São-paulinos


Houve um tempo em que eu acreditava que as amizades verdadeiramente sólidas, pra vida inteira, seriam só aquelas construídas na infância, no início da adolescência, o mais tardar.

Seria mais ou menos como escolher um time de futebol pra torcer: quase todo mundo, quando é pequeno, troca de time algumas vezes, até optar por um, aquele do coração. Porque não daria pra passar a vida mudando, alviverde hoje, tricolor amanhã, ao sabor das vitórias de cada equipe. Há que se escolher e ser constante, na vitória e na derrota, no futebol como na vida.

Mas a vida, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. Um clichê batido? Talvez a expressão do que pode ser, e às vezes é, inesperadamente bom.

Na faculdade em uma repetição do ciclo que eu atribuía à infância,integrei vários grupos, estabelecendo boas relações de boteco/biblioteca/conversa, mas amizade mesmo, só um pouco mais tarde, com aqueles três caras, que se tornaram meus três cavalheiros, os meninos do meu coração, pra vida inteira.

Formávamos um grupo desequilibrado, em termos de paixão futebolística, sendo o Willian o “pontinho verde” em meio à maioria são-paulina. Três bambis e um porco, como eu propus uma vez. Só o Willian achou legal.

O caso é que o nosso palmeirense deixou de ser minoria de um modo bem agradável: desposou uma alviverde e converteu o filhote. Por outro lado, o Anderson garante que o Rapha já nasceu tricolor, e a Katy não se opõe.
O GRANDE ENCONTRO: Raphinha, Katyane, Anderson, Cristina,
Leon, Ana Paula, Vandete, Wilian e Wilian Jr.

A novidade que nos foi comunicada no último domingo é que o Leon está arriscado a se tornar minoria em sua própria casa, já que lançou seus encantos a uma palmeirense muito gente boa (bem vinda ao bando, Ana!), e deu tão certo que a herdeira (o) já está a caminho. Só que, segundo a mãe, periga nascer com um duvidoso gosto por meiões verdes e camisas marca-texto...

Ainda bem que eu tive a felicidade de impedir a virada de jogo:minha baiana fica linda com sua camisa tricolor, e não é a do Bahia.

De qualquer forma, o Willian Jr. ainda está naquela maravilhosa fase da infância, na qual virar a casaca é possível e permitido. Quanto ao resto, amigos maravilhosos podem surgir a qualquer momento, em qualquer fase da vida, se ele tiver sorte como eu.

Cristina dos Santos Monteiro

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Workshop curta-metragem

"Cinema em poucas imagens"

Tive a oportunidade de participar do Workshop curta-metragem: cinema em poucas imagens, produzido pela galera do Coletivo Gema Genérica dentro da SEDA (Semana do Audiovisual 2012). Como já disse aos meus amigos, há tempos eu não participava de um curso livre que me preenchia completamente. Como amante do cinema, realmente me deliciei. Além de participar de aulas muito instrutivas, conduzidas primorosamente pelo mestre Isaac Pipano e assistir a curtas que realmente tinham algo a acrescentar, ainda participei da execução de produção de um curta, como trabalho final deste workshop.

Além das novas amizades e da convivência com pessoas que compartilham de anseios parecidos com os meus, consegui sair do curso com um novo olhar sobre o cinema e ânimo para aprender ainda mais e sempre sobre esta arte maravilhosa. No trabalho final do curso produzimos um curta-metragem que foi filmado no Mercado Municipal de Barretos, o famoso "mercadão". Ao lado de companheiros muito bem aplicados, produzimos um curta intitulado "PROCURA". Como regras, tínhamos que produzir o mesmo em apenas cinco planos, o que foi um desafio muito bom. Acredito que conseguimos desempenhar um bom papel, visto que havia muitas ideias, muitas coisas para fazermos e pouco tempo, pouco profissionalismo mas muito esforço.

Segue o link com a programação completa do Workshop: http://migre.me/9X5EJ

Acompanhem o vídeo produzido pelo meu grupo. Eu atuo em um plano e executo a filmagem em outro: http://migre.me/9X6qS

Galera na sede do Gema Genérica após a edição dos curtas

Minha equipe durante a edição do curta-metragem
Saiba mais sobre essa galera fantástica do Coletivo Gema Genérica através dos links:

domingo, 3 de junho de 2012

Quem deveria aprender com quem?

Recentemente tenho refletido muito acerca da criação de meu filho. A cada dia uma novidade se apresenta e o sorriso é sempre muito bem vindo. Aliás, sorriso igual ao dele não existe... Ele está andando, um presente de dia das mães, quando levantou e caminhou sem a ajuda de nenhum apoio. Ele brinca, come muito, fica doente, enfim, faz tudo que uma criança nesta idade deveria fazer.

A reflexão a qual me atento fica por conta de um comportamento muito bem marcado nesta fase. Tudo o que faço, ele tenta imitar. Outro dia pegou um tubo de cola fechado (ainda bem) e passou debaixo das axilas, simulando quando faço isso com o roll-on. Fantástico! Nem sempre prestamos atenção o quanto eles nos observam. Imitam-nos mesmo, prestam atenção em tudo, mexem em tudo, procuram por tudo, não param um minuto sequer. Aí vem a constatação mais perigosa de todos: quando eles nos imitam, não sabem diferenciar o que é correto e o que não é, não têm capacidade de medir se o que fazemos está correto, se o que falamos está certo ou se nossas ações são boas ou más. Eles simplesmente imitam. E tão claro quanto isso é a constatação de que imitar acaba trazendo certo “aprendizado”. Então eles aprendem tudo o que fazemos, seja isso certo, seja isso errado.

Na atual conjuntura em que nos encontramos, muitas coisas ruins permeiam nossa vida e isso é algo muito forte dentro do cotidiano. Cotidiano esse recheado de informações, recheado de componentes que fazem da nossa vida algo muito rápido, muito volátil. Assim sendo, há muita coisa ruim para eles aprenderem. E eles aprendem.

Agora vem a questão: Quem deveria aprender com quem? Eles conosco ou nós com eles? Façamos uma breve análise.

As crianças são alegres, sorriem para tudo. São tímidas às vezes, são puras em suas considerações e na lógica que fazem das coisas. Têm uma inocência tão etérea que consegue nos desarmar por completo. Quando minha sobrinha era pequena, estávamos uma vez no mercado e ele pediu para que eu comprasse algo. Respondi que não tinha dinheiro. Ela simplesmente disse: “Então passa o cartão”. É a lógica inocente. É a pureza nos sentimentos. Sempre conto uma história que ouvi certa vez: “A criança foi na missa com os pais e no meio do sermão, gritou bem alto um palavrão, chamando a atenção de todos. Os pais ficaram vermelhos de vergonha. Ao final, disseram a todos que a criança nunca havia tido esse comportamento, que ela nunca havia dito um palavrão. Outra pessoa disse: Acredito que ela nunca teria dito um palavrão, mas pode ter certeza, ela já deve ter escutado vários”.  Verdade. Em algum momento ela escutou isso... E aprendeu!

Então, ao invés de nós, adultos, aprendermos a sorrir como as crianças, aprender a não ver malícia nas coisas, aprender a ser ativo o dia todo, deixando pra lá a ociosidade da vida cotidiana, são eles que aprendem conosco. Esse aprendizado deve ser de mão dupla. Devemos aprender com eles também. Mas para isso precisamos fazer um grande esforço em prestar atenção nas pequenas coisas, nas coisinhas que passam despercebidas em nossa vida.

E para perceber a beleza do pequeno é preciso deixar de ser grande, deixar de nos posicionarmos como donos do saber e olhar para nossos filhos como quem procura pela sabedoria, como que quer se saciar com o maravilhoso. Ficamos bobos sim, é verdade. Mas essa “bobeira” deve ser refletida em aprendizado, em sorrisos. Sorrisos e atitudes sinceras. Sorrisos e vontade em viver alegremente.

Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Reflexos da inocência ou do tudo é permitido, mas nada obrigatório 2


O lugar era o mesmo, as companhias não. Aliás, as companhias eram extremamente diferentes, se isso é possível. Mas o lugar, este, certeza, era exatamente o mesmo. Aliás, nada mudara muito da última vez que visitou aquele local. O mesmo ar, a mesma penumbra, o mesmo errare humanum est de sempre.

Quando pôs os pés no interior do local teve a mesma certeza de outrora. A mesma sensação o tomou todo o ser. O tempo era outro, mas a sensação era a mesma, a mesma. Recordações o assolaram naquela fração de segundos entre o primeiro passo e o próximo. Olhou ao redor e viu o que tinha quer ver. Surreal? Fantasioso? Não! Apenas acontecia o que era previsto, as cenas passavam pelos seus olhos como em câmera lenta, porém muito vivas e marcantes. Muito marcantes. Muito vivas. Como se não bastasse a intensidade dos flashes, como se não bastassem as imagens prêt-à-porter que estalavam ao tocar a face, como se não bastasse o flashback nonsense, como se não bastasse tudo aquilo de novo, ele viu. Ele viu por entre as frestas, por entre as passagens.

Ele viu. Não sabe ao certo traduzir a imagem. Não consegue definir o que os olhos viam. Mas tinha uma certeza, ele viu. Viu com a claridade do sol que ali nunca habita. Ele viu.

E numa fração de segundos ele... Viu. Foi só isso. Lembrou-se da inocência perdida, da flecha atirada, das palavras jogadas, lembrou-se de tudo. Tudo tem uma explicação, pensou. Tudo tem um por que. E é aí que nem sempre tudo é o que parece.

Olhou para outro lado. Desta vez com mais profundidade, para não correr o risco de se perder mais uma vez por entre as frestas. E acredite, alguma coisa aconteceu de certo, ou de errado (dependendo do lado em que se está). Alguma coisa dessas que fogem ao controle. Fogem ao controle.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Se você quer sorrir


Quando não se tem a reciprocidade merecida, algo errado está acontecendo. Mas ela não consegue enxergar isso de maneira nenhuma. Tem um brilho no olhar que lhe é singular, tem um doce e um encanto no rosto. Mas não se engane: Tem a sutileza sarcástica do bom humor. E isso, diga-se de passagem, é de longe a melhor característica.

Acontece que parece que ela não sabe disso e vive um sonho onde apenas seus anseios o alimentam. Um sonho que corriqueiramente se torna um pesadelo. E como sempre ela acorda assustada, entende o que estava acontecendo, jura que não vai sonhar mais... Mas, quando volta a adormecer, o sonho volta com toda a força.

E não é que esse sonho a traz vergonha. Ela envergonha-se em saber que está sonhando sozinha novamente. Tem medo de falar seus sentimentos, tem medo de contar aos demais suas aspirações. Bom, então, meio caminho andado para a derrocada final do ser amoroso. Só falta um ponto a ser resolvido. Só falta um ponto, o ponto final.

Outro dia ela escutou: Essa história não tem final feliz, nessa história você nunca vai viver em harmonia. Se quiser voltar a sorrir, tem que acabar com essa história e começar outra. Fato! Mesmo que seja com a mesma pessoa, mas essa história é fadada ao fracasso. Outra deve ser construída, outra deve ser trilhada.

Não se fala mais nisso. Se ela está sonhando sozinha ainda é um mistério. Mas uma coisa é certa: Se estiver sonhando a mesma história em breve todos saberão. Basta olhar para seus olhos marejados e a feição de tristeza que assola os amantes abandonados.

Anderson Mendes Fachina

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Decepção


Hoje eu tive a certeza de que pensar ao contrário, quando se está decepcionado, é algo extremamente difícil. Aliás, a decepção chega rompante, montada num cavalo branco num cavalgar avassalador. Tira-te o chão, o ar, os pensamentos bons, tira-te o norte, o sul, o leste e o oeste.

Há tempos não me sentia assim (salvo as decepções sobre minhas ações e atitudes, que são quase que instantâneas quando faço algo errado). Há tempos eu não ficava tão fora de mim, deixando os sonhos em segundo plano. Em segundo plano não, enterrando os sonhos sob uma camada grosseira de pedras a assentos. Nem o brilho juvenil do horizonte que me cerca conseguiu mudar o panorama da frustração da minha mente.

Fiquei extremamente decepcionado. Fui do céu ao chão em questão de milésimos de segundos. Cai de cara. E minha face ainda está enterrada no lugar em que despencou. Uma certeza se fez presente. Acreditar é antes de tudo uma questão de fé. Fé em algo que julgamos importante. Mas a certeza que se fez presente não foi essa. A certeza é de que quando baseamos esse acreditar naquilo que não é entendido, vemos que o não entendido é na verdade, não verdadeiro.

Anderson Mendes Fachina

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O mesmo sonho

Este sonho tem se tornado corriqueiro. Não é bom. Não é um sonho que se deseje ter. Nele eu vejo cenas que nunca deveriam fazer parte da minha vida e sempre acordo em aflição, em total medo. Não que eu quisesse parar de sonhar. Mas ultimamente meus sonhos não são bons. Não estão sendo sonhos. Pesadelos? Não sei.

Neste sonho eu vejo uma pessoa muito próxima. Ela não me reconhece como tal e mostra o quão sua vida é superior, mesmo sem a minha presença. Mesmo sem a história que nos une. E pior, não há passado, não há sequer história, apesar desta se passar em razão de segundos em minha mente.

Nesta não-história, sou feliz. Nessa não-história tenho a vida que pretendia ter. Mas uma ressalva deve ser feita: quem desconstrói essa não-história sou eu mesmo. Sou eu quem a escreve por entre as linhas paralelas deste caderno que é a vida.

Então no sonho vejo o infinito sem luz. Vejo a luz sem interruptor. Vejo o interruptor, mas minha mão não o alcança. Aliás, não tenho forças para nada a não ser chorar. Um choro resquicioso, um choro que mostra a minha fragilidade diante da avassaladora passagem da borracha que reescreve o futuro.

Às vezes penso: Quem comanda a borracha? Quem posiciona o lápis? Quem vê por entre as linhas traçadas e encontra as brechas da felicidade e da solidão? Mas isso não importa durante o sonho. O que importa é que sofro e vejo isso com meus olhos lacrimejados. Nesta turves que me embala o ser, encontro um propósito muito forte. Sou impelido a acreditar que se trata de um sonho. 

No soluço da verdade, só tenho uma certeza: vou voltar a dormir, vou voltar a sonhar.

Anderson Mendes Fachina

domingo, 8 de abril de 2012

Ele está morrendo

Por todos os ângulos que eu olho, vejo a mesma coisa: ele está morrendo. Não que ele estivesse em plena vivência, gastando saúde ou mesmo com fôlego para dar algumas caminhadas, mas está morrendo. Está morrendo porque não consegue mais. Está morrendo porque não encontra parâmetros do outro lado. Está morrendo porque a morte pode ser a sua salvação. Está morrendo porque a morte pode significar uma nova vida em outro lugar. Um lugar onde sua imaginação tem asas e a vida tem algum sentido.

Durante muito tempo ele acreditou neste teatro. No fundo ainda acredita. Mas sabe que quando o roteiro é escrito por um autor intransigente, que evoca todas suas perspectivas de vida para falar que é o dono da verdade, que conhece a arte como ninguém, não adianta tentar ser espontâneo, não adianta tentar querer mostrar que tem também um bom lado artístico. Tem que seguir o roteiro e ponto.

Outro dia tentou comemorar um ano de bons e maus momentos, mesmo porque acredita que essa vida deve ser celebrada. Mesmo porque acredita que os passos estão sendo dados, e ele ainda está aberto. Mas essa comemoração ficou para trás. Foi vencido pelo cansaço da falta de imaterialidade do outro. Foi vencido pela falta de sonho do outro. Foi vencido pela vida onde ele não habita, não faz parte. Uma vida onde ele tem apenas uma função: ajudar. Não faz parte dela, não foi considerado em sua construção... Mas é cobrado a ajudar, é cobrado com afinco, sob pena de ser excluído dos demais processos, como o é sistematicamente.

Ele está morrendo, apesar da vida belíssima e pequenina que tens em mãos. Uma vida que lhe encanta a todo o momento. Uma vida que deveria ser celebrada, mas não é. Pena, talvez seja a única vida que realmente importa, já que a sua não existe.

Ele está morrendo... Mas a morte é dolorosa e implacável. Seu processo é penoso demais às vezes. Ele está morrendo... Mas ao mesmo tempo ainda tenta entender o que está acontecendo para poder continuar a pensar: já que a morte é dolorosa demais, talvez só lhe reste uma saída.

Anderson Mendes Fachina